Total Guitar

GREEN DAY - DOOKIE

 

No primeiro de uma série, a TOTAL GUITAR dá uma olhada e analisa os álbuns que mudaram o mundo da guitarra e influenciou gerações de guitarristas. Neste mês: Como o álbum mais vendido do mundo que tem seu nome dado graças á fezes, conseguiu chegar ao mainstream.

 

"Dookie foi tipo, a SEGUNDA VINDA do rock n' roll após o Nirvana. Após o Nevermind, era o único álbum que você deveria ter em sua coleção para saber o que andava acontecendo com a música na época”, disse Josh Partington, guitarrista do Something Corporate.

 

Aqui vão alguns fatos que você provavelmente não conhece sobre o terceiro álbum da banda: 1-) Dookie já vendeu mais de 12 milhões de cópias no mundo todo após seu lançamento oficial. 2-) A banda Good Charlotte se formou após seus membros escutarem o Dookie. 3-) A primeira banda de Matt do Busted, só tocava covers de Green Day. 4-) O nome original do álbum deveria ser “Liquid Dookie”, mas a banda achou que seria nojento demais. 5-) Em 1994, no começo do ano, a banda tocava na cozinha da casa de amigos. o fim do ano, estava tocando para 18.000 pessoas no Madison Square Garden. 6-) Dookie pode muito bem ser o álbum que mais influenciou guitarristas no mundo. E aqui vai o porquê...

 

No começo dos anos 90, o selo Lookout! Records assinou um contrato com uma banda do Norte de Berkeley, que levava o nome de uma gíria da cidade sobre um dia em que você não faz nada, a não ser fumar toneladas de maconha, Green Day. Liderados pelo guitarrista e vocalista Billie Joe Armstrong, seus shows poderosos e crus chamaram a atenção de alguns selos, mas a Lookout! chegou primeiro, liberando a verba para que a banda gravasse seu primeiro álbum, “1.039/Smoothed Out Slappy Hours”.

 

Um segundo álbum, Kerplunk, seguiu o lançamento do primeiro álbum e não muito tempo depois, a banda já era uma celebridade de sua cidade, levando regularmente, mais de 2.000 pessoas por show. Era a hora certa para o Green Day atacar. Recrutando os serviços de uma empresa de gerenciamento, a demo da banda foi levada á várias gravadoras, incluindo Warner, Sony e Geffen, mas a banda não chegou a assinar nada. Após muita resistência, eles assinaram com a major Reprise Records, embora muitos rumores do meio underground diziam que eles haviam “se vendido”. Armstrong disse, mais tarde, na revista MOJO: “Para nós, assinar com uma major não significa que estávamos nos vendendo”. Tré Cool, baterista da banda, disse, “Nós esperamos muito tempo. Esperamos até conseguirmos controle total sobre o processo criativo.”

 

Então se deu início á gravação do que viria a ser a obra-prima do punk moderno. Um álbum que abriria a porta para que milhares de bandas também pudessem saborear do sucesso do mainstream, que iriam inspirar várias bandas punk-pop que estavam dormindo no ponto e que teria, eventualmente uma década depois, sua essência diluída e vendida em forma de marketing para uma audiência ainda mais jovem.

 

O Green Day entrou no Fantasy Studios em Berkeley, Califórnia, no fim do verão de 1993. Eles tinham uma idéia bem clara de como o álbum iria soar. “Nós sabíamos quando entramos para gravar o Dookie que ele seria mais agressivo,” disse Armstrong. “Mas sabíamos que estávamos com uma gravadora que nos deixaria gravar o que fosse, mesmo que não fosse ‘bem–sucedido’ comercialmente. Nós queríamos músicas simples que não teriam solos de merda, para que todos colocassem ali o que fosse preciso e que todos tivessem seus momentos bem destacados no álbum”.

 

A fim de manter a energia, Billie Joe se esforçou demais. A banda gravou 17 canções em 19 dias e os vocais levaram apenas dois dias para serem gravados. Algumas músicas foram gravadas em apenas um take! Billie Joe disse ao VH-1, “Nós não queríamos que ele soasse como um álbum de rock entediante. Queríamos que tudo soasse direitinho. Queríamos as guitarras altíssimas, enormes. Quero dizer, nós mixamos o álbum duas vezes. Da primeira vez que mixamos, nem queríamos usar reverb. Queríamos que o álbum soasse bem cru mesmo, do jeito que os primeiros álbuns do Sex Pistols e do Black Sabbath soavam. Nós queríamos fazer um álbum no estilo independente, daqueles de Us$500 e usar a grana da gravadora para conseguir os melhores sons. Mas, da primeira vez que mixamos, o resultado ficou um lixo!” Após uma turnê em suporte aos lendários punks do Bad Religion, a banda se juntou mais uma vez com o produtor Rob Cavallo para remixarem o álbum. “Nós apenas sentamos juntos e ficávamos dormindo em cima da mesa de som, fumando toneladas de maconha e consertando nosso álbum”.

 

O novo e reformado Dookie foi finalmente lançado no dia 01 de Fevereiro de 1994. Mesmo com resenhas elogiando enormemente o álbum, ele entrou em número 141 no chart da Billboard. O primeiro single, Longview, não foi a escolha comercial mais óbvia, mas foi a introdução perfeita: pegajosa, mas com uma enorme atitude punk. A maior saudação ao tédio, descreve um mundo onde a televisão, telefone e masturbação não adiantam mais. Armstrong admite que a letra é pessoal. “Eu estava sem criatividade alguma, morando em várias casas diferentes, dormindo no sofá da casa de amigos, uma música que fala sobre você tentar não se sentir patético ou sozinho. Eu realmente não acho que a masturbação estava sendo vista do ponto de vista igual ao meu... Ela vinha da perspectiva de um cara solitário, sem namorada, sem uma vida... Um completo perdedor.” O vídeo foi filmado no porão da casa em que ele dividia com Cool e alguns conhecidos e mostra o vocalista destruindo a sala na qual ele compôs a canção.

 

“[Dookie] mudou minha vida. Logo após o lançamento do álbum, eu quis começar o Good Charlotte” – Joel Madden, Good Charlotte.

 

Lembrando da energia gasta do Nirvana no vídeo de Smells Like Teen Spirit, era a canção perfeita para acordar a descrente juventude americana. Um dos jovens era Billy Martin, do Good Charlotte. “Eu cheguei da escola um dia, liguei na MTV e o primeiro vídeo que eu vi foi Longview,” ele explica. “Eu ainda estava com a minha mochila nas costas e de pé. Eu não conseguia sentar, pois queria terminar de ver o vídeo. Foi cativante. Eu me lembro dele dizendo ‘masturbação’ e eu disse, ‘Nem fodendo!’ O Green Day não se importava. Eles faziam sua música e não havia nada como eles na TV”.

 

O brilho de Dookie está calcado na mistura do deboche punk com a sensibilidade pop; de alienação e união; de hormônios e putas; de ansiedade e raiva; de vender sem se vender. Claramente influenciados pela primeira leva do punk e do pós-punk, especialmente The Buzzcocks, The Undertones e The Jam, as letras do Green Day imediatamente entraram na mente dos adolescentes. Dookie pode ter sido concebido com refrões que fariam com que os pais tentassem cantar junto, mas existia muita desilusão, linguagem chula e muito xingamento suficientes para mandar todos á merda. “Eu escrevi muito sobre ser um perdedor, pois fui condicionado a pensar dessa forma,” Armstrong disse certa vez, ainda que sua fórmula de tocar com as cordas abafadas e sua perspectiva triste, mas relevante se provou vencedora.

 

Não demorou muito para a influência de Dookie começar. Assim que a palavra desse quarteto da Califórnia começou a ser espalhada, um single que saía vendia mais que seu antecessor e muitos punks perderam sua “virgindade” nesta época. “Eu tinha 14 anos de idade quando Dookie saiu,” disse o guitarrista do SUM 41 Derick Whibley ao site mtv.com. “Eu me lembro de ver o vídeo de Basket Case pela primeira vez. Eu nunca tinha ouvido falar do Green Day e então o vídeo aparece e me deixa extasiado. Foi muito legal. Tinha muita energia e era bem diferente. Nunca tinha visto nada como aquilo antes. Daquele momento em diante, eu virei fã.”

 

É um sentimento dividido por um número de guitarristas que, inspirados pelo simples charme de Dookie, estão desde então subindo nas paradas com suas próprias criações punks. “O álbum mudou minha vida,” admite Joel Madden do Good Charlotte. “Fez com que eu quisesse começar o Good Charlotte. Logo quando o álbum saiu nós dissemos, ‘Nós temos que começar uma banda na garagem agora e fazer shows... Que nem o Green Day!’ Enquanto isso, seu irmão Benji disse á Total Guitar, “Nós temos inspiração de muitas bandas. Nós amamos Blink-182 e Green Day. Sempre que nos comparam eu aceito como um elogio.”

 

Enquanto adolescentes ao redor do mundo entravam em suas garagens, os primeiros sintomas do sucesso de Dookie, eram vistos nas paradas de sucesso quando outras bandas punks do underground começaram a aparecer na mídia. The Offspring, formado em 1989, arrasou as paradas com seu terceiro álbum SMASH, lançado em 1995, enquanto os ska-punks do Rancid, se tornaram multiplatinados com seu terceiro álbum ...And Out Come The Wolves acompanhado pelo hit-single “Time Bomb”. O Blink-182 foi o próximo a ser beneficiado. Embora sejam contemporâneos ao Green Day em alguns aspectos (seu álbum de lançamento foi em 1994, eram companheiros de tour no começo da carreira e os dois vocalistas tocam com guitarras personalizadas Fender Stratocaster!), a banda teve uma leal seqüência, mas brigavam para conseguir uma audiência ainda maior. Graças ás vendas de Dookie, outros selos começaram a procurar pela sua história punk de sucesso. O Blink assinou com a M.C.A e lançou em 1999, Enema Of The State e se tornou enorme.

 

Então, no fim de 1990, a primeira leva de influências diretas começaram a aparecer em nomes como Sum 41, Good Charlotte e New Found Glory. Bandas que engoliram a marca registrada do Green Day e misturaram com outras influências para fazer seu som, de metal á hardcore e vomitou tudo isto para a nova geração. “Depois que eu escutei o Green Day, um novo mundo se abriu em minha frente com relação á música punk,” disse Steve Klein. “Eu queria escutar todas essas diferentes bandas apenas por ter ouvido um único álbum”.

 

O guitarrista-solo do Sum 41, Dave Baksh, cresceu em uma dieta bem restrita de guitarristas de heavy-metal e ficou impressionado com o estilo criativo e forte de Armstrong. “Ele não toca todas aquelas coisas loucas,” Baksh disse á TG. “Mas é um excelente guitarrista. Billie Joe consegue tirar um som que ninguém mais consegue”.

 

Entretanto, como todo álbum que vira uma influência, a influência de Dookie, passou dos limites. Primeiro, tem o safado nome do álbum e Billie diz: “É uma história nojenta. Nós estávamos em turnê e só comíamos porcaria o tempo todo. Você acaba ficando na merda, literalmente. Então, começamos a chamar o álbum de ‘Liquid Dookie’ (Cocô líquido). Tipo, ‘Cara e ae, como foi no banheiro?’, ‘Foi líquido cara, pura água...’. Mais tarde nós começamos a dizer, ‘Não seria engraçado se déssemos este nome ao nosso álbum?” As referências á excremento e piadas de colegial foram levadas mais á sério por bandas que seguiram o Green Day, como o Blink-182, por exemplo. Levando os charmes de Dookie á uma conclusão mais pueril em canções como “Dysentary Gary”, “Blow Job”, “Dick Lips” e “Enema Of The State”, o Blink achou o seu nicho punk.

 

Enquanto isso, assim como a primeira leva do punk chegou com seus cabelos estranhos, roupas cortadas e alfinetes, o sucesso do Green Day e Dookie impactaram o mundo da moda. Assim como Josh Partington do Something Corporate disse á mtv.com, “No vídeo de When I Come Around eu vi ser lançada a moda do suéter listrado. Eu me lembro, duas semanas depois na escola cada garoto vestia um suéter listrado... Inclusive eu!”.

 

É uma moda que continuou como tempo, via o usuário de suéter Mattie Jay do Busted e uma que nos traz bem perto da última infiltração do Dookie no mainstream. O Busted pode ter terminado, mas por dois anos, foram a maior banda de guitarras vendida na Inglaterra, levando oito singles no top-3 das paradas e lançando dois álbuns que venderam milhões. Se Dookie sinalizou a viabilidade econômica no mainstream para o punk em 1994, com certeza o Busted foi a revelação britânica. Suavizando um pouco o som punk do Green Day e sua imagem, mas mantendo a estética dos assuntos e a sensibilidade pop, o Busted ofereceu o ticket de entrada para os adolescentes ao mundo das guitarras e cabelos espetados.

 

Embora muitos fãs do Green Day não gostem de admitir isso, a linha entre Green Day e Busted é difícil de ser notada. Para iniciantes, considere Jay um músico e tanto. Quando ele tinha 13 anos, ganhou uma bateria completa e formou uma banda cover de Green Day, a Sabotage. “Nós apenas tocávamos covers do Green Day,” disse á um site americano, “e não eram umas covers muito boas, diga-se de passagem.” E então aparecem as letras. OK, o Busted não xingava, mas as letras estavam bem em sintonia com os sentimentos dos adolescentes: olhar para a bunda gostosa de uma professora, ser rejeitado por uma garota ou apenas ser um garoto perdedor. Versos raivosos como, “Estou perdendo toda minha felicidade” de Having a Blast e “O Sinal de chute estava sempre em mim”, de Loser Kid, não ficaria de fora de Dookie, embora alguns outros mais juvenis como “Te escrevendo uma carta, borrei minhas calças”, de Air Hostess, vem diretamente do manual do Blink-182. De fato, como o James Bourne do Busted disse á TG, “O Blink-182 provavelmente é nossa maior influência no som e letras, eu realmente me inspiro na banda. O nível de musicalidade da banda é maluco”. Então, a conta é fácil, sem Green Day e sem Blink-182, sem Busted.

 

A palavra final no legado de Dookie deve ir á Armstrong que, fora seus valores punks, se sente confortável com o alcance do álbum e seu appeal comercial. “Eu acho que nós éramos a introdução á um garoto que vai conhecer ainda mais sobre o mundo do punk rock e isso é algo positivo,” ele comenta. “Muitos garotos são ativos na comunidade punk rock hoje em dia e isso tem á ver com o fato de terem conhecido Dookie. Eu sei, pois quando tocamos as músicas nos shows, temos uma resposta incrível. Nunca me canso de tocar aquelas músicas. Eu sei que elas são boas e eu sou real. Tenho muito orgulho daquele álbum, Para mim, aquelas músicas estarão sempre por aí.”