Rolling Stone - 2005

 

Heróis da classe trabalhadora

 

Ninguém tem feito melhor às custas de George W. Bush do que Green Day, exceto talvez Halliburton – 4,5 milhões de cópias de American Idiot vendidas. Na estrada com os mais apaixonados cantores de protesto punk rock da nação.

 

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É a penúltima noite da turnê americana do Green Day por trás do álbum American Idiot, e eles estão fazendo um show embalado no Gaylord Entertainment Center, em Nashville. Se você puder chamar de show. Na realidade, é puro ato político – misturado com um rally anti-governamental carregado de punk-rock. Vocalista e guitarrista, Billie Joe Armstrong – uma dinamite pequenininha vestida de preto, olhos  contornados com kohl (tipo de cosmético) – faz o papel de um grande ditador que, entre músicas, marcha pelo palco com a sua guitarra carregada nos ombros como uma arma e se apresenta como “George W. Bush – mas meus amigos me chamam de cuzão”. Explosões massivas chocantes (feitas pela equipe pirotécnica da banda) periodicamente agitam a casa e lembram, de modo intranqüilizador, os ataques em Nova Iorque, Madrid, Londres, e Iraque. Após quatro músicas, as luzes da casa se apagam e a arena é mergulhada em escuridão. Armstrong, iluminado por uma satânia luz vermelha, aponta um holofote em suas mãos para a multidão e recita, em tom ameaçador, o “Pledge of Allegiance”, enquanto o baixista Mike Dirnt toca uma linha de baixo paranóica impulsiva e o baterista Tré Cool bate na sua armadura de tambor como uma bomba prestes a detonar. Eles explodem com “Holiday” – uma música anti-governamental incendiária, na tradição de “Masters of War” de Bob Dylan. E quando, perto do fim do show, eles tocam a balada triste “Wake Me Up When September Ends”, uma curtina de faíscas chovem de dispositivos de pirotecnia no topo do palco, uma bela e triste

 

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vista. Armstrong inclina sua cabeça para cima e olha enquanto o fogo chove abaixo no que o Green day te convenceu ser um país e um mundo com sérios problemas. Mas, antes de eles deixarem o palco, Armstrong rugi para a platéia: “Eles não têm o poder! Vocês são os líderes! Nós elegemos essas pessoas! Não deixe eles ditarem suas vidas ou te dizerem o que fazer”. Por um momento, ele soa como um candidato a presidente.

 

Isso não é nenhum acidente. Com o lançamento de American Idiot em setembro de 2004, seis semanas antes das eleições presidenciais, Green Day nos informou que tinha deixado para trás a sua identidade de trio californianiano de punks brincalhões que chegou ao número um das paradas pela primeira vez em 1994, com uma música, “Longview”, sobre passar o tempo em frente a Tv e se masturbar. American Idiot foi enorme em termos de ambição e alvo, e soou como um chamado direto aos armados para expulsarem do Salão Oval (escritório do presidente) o idiota mais poderoso do país. Embora o álbum não tenha sido bem sucedido nisso, ele foi em frente vendendo 10 milhões de cópias ao redor do mundo, e rendeu ao Green Day um Grammy e um rapa no MTV Video Music Awards. Chamado de primeira ópera punk-rock do mundo, American Idiot é algo mais: é um destemido e politicamente astuto álbum de rock, uma coleção de músicas ricas em melodia que dá voz aos americanos discrentes da classe baixa dos subúrbios que não se sentem representados pela atual liderança do homem do óleo e elite, e que são muito espertos para aceitar a “realidade” que é apresentada pelos jornais da mídia que vendem o medo e a instigação de guerra impostos pelo governo – “a nation under the new mania” (uma nação sob a nova mania) – como Armstrong fortemente resmunga na feroz faixa-título.

 

A transformação do Green Day de palhaços do punk-pop para políticos pertubadores que falam abertamente foi surpreendente - exceto para aqueles que sabiam alguma coisa sobre a infância dos membros da banda, e o seu cedo início como uma banda no caldeirão da cena de punk-rock de Berkeley, Califórnia, uma retrospectiva que faz o surgimento de American Idiot, e a sua acompanhante baderna despertadora de rebeldia de um show ao vivo, parecerem inevitável.

Nascido há trinta e três anos atrás em Oakland, Califórnia, Billie Joe Armstrong foi criado no subúrbio de São Francisco de Rodeo. O mais novo de seis crianças de um pai caminhoneiro e uma mãe garçonete, ele era um talentoso cantor prodígio. Aos cinco anos de idade, com o incentivo de uma professora de música, ele lançou um single, “Look For Love”, em um selo local minúsculo e começou a fazer shows com seu pai, Andy, que era baterista nas horas vagas. Era uma infância feliz, até que, quando Billie Joe tinha apenas dez anos de idade , seu pai faleceu de câncer. Sua mãe foi deixada para criar Billie Joe e seus cinco irmãos com seu salário ganho servindo mesas em um restaurante  24-horas chamado Rod’s Hickory Pit. “Ela trabalhou muitos turnos”, ele diz. “Meus irmãos e irmãs foram deixados em uma posição onde tiveram que amadurecer muito rápido e se tornarem pais para mim.” Então sua mãe casou-se com um homem que Billie Joe e seus irmãos detestavam. Ele se voltou para a música e, na época em que entrou no colégio Carquinez Midlle School, no outono de 1982, aos 11 anos, ele não pensava em muita coisa a não ser dominar a guitarra. Um dia, ele começou a conversar com alguém da sua sala de aula, um garoto loiro e magrinho também fanático por música., Michael Ryan Pritchard – mais conhecido hoje como Mike Dirnt. “A primeira conversa que a gente teve foi sobre música e composição”, diz Dirnt. “Bem lá no refeitório”.

Dirnt descreve a si mesmo como alguém que sempre se sente como se “estivesse do lado de fora olhando para dentro”. Nascido em 1972 de uma mãe adolescente viciada em heroína, ele foi dado para adoção com seis semanas de vida. Seus pais adotivos se divorciaram quando ele tinha sete anos, e ele acabou ficando com sua mãe, uma americana nativa, que tinha que manter três empregos para sustentar a família. “A gente simplesmente nunca a via”, diz Dirnt, “Ela tinha que trabalhar o tempo todo”. Como Armstrong, ele se refugiou na música, tocando guitarra no seu quarto. Depois dos amigos se unirem no colégio, eles prepararam um local de ensaio na sala de estar da casa de Armstrong onde tocavam covers de Van Halen e Mötley Crüe. Quando a mãe de Dirnt faliu, perdeu a casa, e se mudou da região, ele mudou-se para a garagem da famíla de Armstrong.

“A política pra você quando é uma criança, é apenas o que seus pais estão reclamando pela casa”, diz Dirnt. “Eu me lembro de quando eu era um garoto, torcendo para que Jimmy Carter ganhasse. Não sei porque diabos eu estava querendo isso. Eu não o conhecia por nada.”

 

Mas quando eles tinham quinze anos de idade, Armstrong e Dirnt aventuraram-se pela primeira vez no clube punk-rock all-ages 924 Gilman Street Project, e tudo mudou. Localizado no distrito de Berkeley, 924 Gilman era um clube sem visar lucros, cheio de pichações, para legiões de punks tatuados e com moicanos, que era dirigido  voluntariamente com uma base de cooperações. Gilman foi onde Armstrong e Dirnt se apaixonaram por música punk e quando se involveram com política.

“Nós todos temos a mesma posição quando se trata de política”, diz Jesse Townley, um antigo voluntário de Gilman que conhece os membros do Green Day desde o final dos anos 80. O presidente Ronald Reagan estava no seu segundo mandato, e ele era um alvo da raiva dos punks americanos de todos os lugares, principamente da Califórnia, que já haviam sofrido durante oito anos sob seu governo estadual. “Não era apenas Reagan”, Townley aponta. “Era uma análise da corrupção dos políticos dos Estados Unidos, no estilo do final do século vinte: a busca pelo dólar todo-poderoso e a busca pela conformidade. Você pode ouvir isso em todos os tipos de bandas da cena daquela época.

Armstrong e Dirnt se tornaram regulares de Gilman e absorveram as ideologias dos muitos punks do sub-sistema que ficavam lá. “Existia uma facção agressiva”, diz Dirnt, “uma facção brincalhona – tudo desde bandas como Gwar até pessoas que eram literalmente como Weird Al com um violão e um balde daqueles de galinha frita na sua cabeça.”

“Tinha uma cena de garotos que usavam uma linha mais de hardcore anarquista”, diz Armstrong, “e então tinha o lado mais de origem, apenas total anarquismo. Tinha as pessoas bem educadas mesmo, assim como hippies largados. E muitos garotos punk-rock locais. Nós meio que representávamos a facção dos adolescentes fugitivos.” Ele ri.

 

Era impossível ficar no Gilman Street e não se tornar politizado. “Era tudo desde as bandas que nós ouvíamos”, diz Dirnt, “até fanzines, até ficar sentado em lojas de café ou atrás de prédios bebendo cerveja junto de amigos que tinham inclinações políticas." Um dia alguém deu a Dirnt uma cassete de uma banda chamada Crimpshrine, que tinha uma música de título "Free Will"."A letra falava 'Question everything' (questione tudo) e eu achei aquilo muito bom", ele diz. "Não aceite as coisas antes de pensar a respeito". Armstrong lembra-se de uma banda chamada Sewer Trout que tinha a música "Wally and Beaver Go To Nicaragua" - uma canção sobre os protagonistas da série de tv Leave It to Beaver debatendo a administração de Reagan da guerra da América Central. "Aquilo somava muito do que Gilman Street representava", diz Armstrong.

À parte de seu despertar político, algo mais aconteceu em Gilman que teria um efeito incalculável no seu futuro. Eles conheceram um camarada adolescente, e regular de Gilman, que já havia adotado o nome de Tré Cool. Dos três membros do Green Day, Tré (sempre dito como o lado mais cômico da banda por seu senso de humor) cresceu bem longe da maioria da sociedade americana. Nascido Frank Edwin Wright III em 1972, ele é filho de um pai veterano do Vietnã que, depois da guerra, se refugiou com a família para uma casa no topo de uma montanha remota, perto da pequena cidade de Laytonville, a três horas e meia do norte de São Francisco. A casa, construída pela família, não tinha eletricidade ou TV.

 

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Tré tinha onze anos quando foi recrutado para tocar em uma banda liderada por por seu vizinho apaixonado por punk que o ensinou a tocar bateria com sua música "Fuck Religion".

Tré foi parar na cena de Gilman depois de largar o colégio. Ele também bebeu da política punk de Gilman Street. "Era a maneira como as pessoas eram políticas em Gilman", diz Tré, "que é algo que trouxemos conosco. Seja muito corajoso nas suas declarações. Tipo, um flyer de uma banda feito de forma bem simples mas com a cabeça do Ronald Reagan cortada fora, colocada num tanque, debochando dos seguidores de Gandhi. Coisas desse tipo."

 

Em 1990, Armstrong, Tré e Dirnt haviam se unido como Green Day (nomeado assim em homenagem a um dia longo fumando baseado) e eram uma das maiores atrações de Gilman, atraindo multidões de fãs com seu empolgado punk de três cordas sobre a vida sendo adolescentes largados e maconheiros. A banda lançou Kerplunk no selo independente pequeno Lookout! Records em 1992, e uma guerra de apostas começou entre as grandes gravadoras. Green day assinou com a Reprise, e em fevereiro de 1994, eles lançaram seu primeiro álbum em uma grande gravadora, Dookie, que fez deles, aos vinte e poucos anos, estrelas instantâneas e frequentadores da MTV, vendendo oito milhões de cópias nos Estados Unidos. Eles seguiram com a pancada do Insomniac (1995) e o mais amigável Nimrod (1997), no ponto em que a banda parecia meio sem ânimo. Com todos os membros então casados e com filhos, as letras de Armstrong foram constantemente se tornando mais íntimas, expressando medos que encarava de estar se tornando velho, chato e indiferente - "a grouch sitting on the couch" (um resmungão sentado no sofá) - como ele afirmava em Nimrod. Três anos se passaram antes deles lançarem Warning, em 2000. A faixa-título e a música "Minority" ("down with the moral majority”) mostrou a banda procurando temas mais abrangentes do que angústia da meia-idade, mas as músicas faltaram resplendor, e as vendas também. Em 2003, Green Day estava se perguntando se eles se quer queriam continuar como uma banda.

 

Aí, Armstrong escreveu "American Idiot" - uma música na qual ele se viu referindo a coisas que vinham sendo construídas nele durante os anos anteriores. "O ataque terrorista em Nova Iorque", ele diz, "foi um catalisador. Mudou completamnete o clima, e é impossível não ser afetado por isso e por tudo que se seguiu: essa guerra, mais paranóia, os alertas de terror de diferente cores." As tentativas de temas políticos que começaram a emergir em Warning agora saltaram à frente, e o seu cedo treinamento em Gilman energizou suas letras. Ele insiste que não começou a escrever o álbum para acabar com o Bush ou com a intenção de pregar. Ele escreveu as músicas como uma maneira de entender o que estava acontecendo à medida que os eventos iam ficando fora de controle.

"Eu escrevo músicas para descobrir o que penso", ele diz. "Você passa por períodos onde ninguém fala sobre nada. Isso era o que estava acontecendo na condução da Guerra do Iraque. Eu pensava, ' Dê-me um debate'.

 

Tipo, eu penso às vezes 'Eu sou um conservador?' Eu tenho filhos e eu não os quero assistindo coisas na TV que não seja apropriado. Essa é uma posição conservadora. Eu tenho amigos que são conservadores. Então o que eu sou? O que eu realmente sinto e penso? Vamos conversar; me dê um argumento.' Eu estava debatendo comigo mesmo nessas canções. Em "Holiday", ele escreveu o refrão: "This is our lives on holiday". "O verso", ele diz, "é sobre pessoas apenas sendo estúpidas, virando as costas e não prestando atenção no que está acontecendo". A incendiária seção do meio da música que é dita ("Zieg Heil to the president gasman") usou técnicas dos dias antigos de Gilman: "Eu penso saobre aquela parte no meio da música sendo como um flier de punk-rock, uma colagem fudida", ele diz. "é como a Alemanha nazista com a França e a Califórnia e o Senado, essa forma apocalíptica de escrever."

 

As músicas, com seus muitos comentários políticos, foi uma mudança abrupta para a banda. Então foi com medo que Armstrong deu as notícias para Dirnt e Tré.

"A primeira vez que ouvimos "American Idiot", nós ficamos tipo, 'Nossa!Ok'", Dirnt lembra. "Billie disse, 'Vocês se importam de eu estar dizendo essas coisas?' Nós dissemos 'Diga mais. Nós gostamos. Vai nessa.'"

Sem dúvidas. Seria difícil superar o ódio da banda pela atual admnistração e seu líder.

"Olha", Dirnt diz, "se Bush é moralmente e politicamente correto, então eu estava fudido desde o início. Eu venho de um mundo do qual ele nunca entenderia. Drogas e brigas e divórcio. Se ele está certo sobre o que é correto neste mundo, com seus companheiros do óleo e seus camaradas da elite, então eu estou fudido de qualquer maneira. Se o céu é essa festa gigante onde nenhum dos meus amigos estarão, eu acho que não fui convidado desde o início."

"O negócio sobre  o Bush", Armstrong adiciona, "é que a maneira como ele cresceu não representa toda a maioria da classe média e da classe trabalhadora e da América pobre. A maneira como ele lidou com algo como o furacão Katrina foi o reflexo disso. Ele não sabia como lidar porque ele não sabe o que é ser trabalhador ou pobre. Ou até mesmo negro. Enquanto que se você pensa em alguém como Bill Clinton, a maneira que ele veio - e eu não vou dar uma de Sr. Amo O Bill Clinton não - mas ele teve uma infância perturbada, ele trabalhou a sua ascenção na política. Havia um caminho pela classe trabalhadora que ele escalou para a política. Com Bush, é como velha realeza."

"Bem", diz Tré, com quem sempre se pode contar para ir um pouco mais adiante do que qualquer outro, "ele tem uma agenda para servir a ele mesmo e aos seus companheiros de elite. As pessoas dizem que ele pisou na bola com o furacão Katrina. Mas também tem pessoas que dizem que há toda uma outra maneira de pensar naquele círculo de elite onde eles dizem, 'Essas coisas devem acontecer. População demais deve ser cortada de alguma maneira. Guerra, enchente.' É assim que eles pensam.

Armstrong ri. "É", ele diz, "a única coisa que Bush não disse foi que ele ia construir uma arca."

 

Para Armstrong, a religiosidade do presidente nascida de novo é um perigo. "A guerra ao terror joga certo com o tipo de guerra que os supostos terroristas querem ter com essa guerra santa", ele diz. "Porque eles estão vendo essa guerra como vinda de um homem religioso, George W. Bush. De repente, não é sobre terrorismo. De repente torna-se Cristianismo contra Islamismo - e nada consegue fazer o sangue dos muçulmanos fundamentalistas ferver do que algo assim.

 

A postura anti-guerra do Green day deriva em certas partes de suas histórias pessoais. Todos os três vêm de um nível socio-econômico - classe trabalhadora - de onde a vasta maioria dos soldados são escolhidos. "O irmão da minha mãe, meu tio Jay, morreu no Vietnã", Armstong diz, "Ele foi morto no ar com um tiro, saltando de pára-quedas. Minha mãe costumava falar a respeito. Desde que eu era bem novo eu me lembro, eu pensava, 'Ir para o exército = morte enquanto jovem'. Isso me amedrontava e não fazia o menor sentido para mim." A experiência de Tré ao crescer sendo um filho de um veterano do Vietnã fez pouco quanto a estimular uma atitude pró-guerra nele. "Depois da guerra, meu pai não gostava de falar a respeito disso", ele diz. "Mas certas coisas o lembravam. Tipo, se você queimar cabelo perto dele, ele fica louco. Cheira morte, corpos queimados.”

 

No verão passado, Green Day lançou o clipe para a balada "Wake Me Up When September Ends". A letra foi escrita por Armstrong sobre a morte de seu pai.  Mas para o clipe, o diretor Samuel Bayer teve a idéia de ter como tema a Guerra do Iraque.

"Sam disse que havia perguntado a um monte de soldados 'O que foi que te fez ir em frente,

 

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se alistar e se juntar ao exército?'”, diz Tré. “Oitenta por cento deles falaram, ‘Sabe, tem esse comercial...’ Então ele disse, ‘Nós temos que jogar sujo,. Não há nenhuma imagem forte falando o contrário.’ O clipe é como um comercial para pensamento livre – ou paz – usando as mesmas táticas que o governo usa para fazer as pessoas se juntarem ao exército. Nós viramos as máquinas contra elas mesmas.”

Ao serem perguntados se se preocupam de serem acusados de explorarem a guerra no sentido de entretenimento, Dirnt sai na frente antes mesmo que a pergunta termine.

"Rck & Roll deve ser perigoso”, ele fala. “Quando não é, aí sim que é mundano – você consegue ver direitinho, você quer mudar de canal. Deve ser surpreendente e tumultar com questões, e acho que aquele clipe, no fim do dia, se resume àquele sentimento de perda. É algo pelo qual todos nós já passamos, e quanto mais longe chegamos com essa guerra, mais pessoas por dia estão passando por isso.”

 

Armstrong destaca que o clipe foi o número um escolhido pelos adolescentes que votaram em seu clipe favorito no Total Request Live (top 10 da MTV americana). Aquelas são as pessoas que estão pensando na possibilidade ‘Poderia eu me alistar nas tropas quando tiver dezoito anos?’”

Antes de mostrar o clipe para seus pais e irmã, Tré propositalmente não disse a eles o foco da história., que é um casal de jovens apaixonados que são separados quando o menino (convencido de que uma poupança do exército vai trazer oportunidades melhores para eles) se alista e vai para a Guerra do Iraque. Assim que chegou a parte em que o garoto sai do ônibus e o sargento grita com ele , minha mãe ficou tipo, ‘Oh Meu Deus’”, diz Tré. “Toda a minha família ficou com lágrimas nos olhos. Minha mãe viveu tudo isso. Ela esperou por meu pai.”

 

A história dessa família com certeza daria a Tré o direito de “explorar” a Guerra do Iraque para um clipe musical. Mas diga isso à Armstrong e ele balançará sua cabeça discordando.

“Nós somos americanos”, ele diz. “Todos nós temos a autoridade para fazer um clipe como aquele.”

 

Se American Idiot foi sobre expressar sua fúria política, também foi sobre abraçar um outro aspecto crucial de suas identidades: Eles são rock stars. Em Gilman, os punks tinham um desejo de excomungar rock stars.

 “Assim que assinamos com uma gravadora grande”, diz Armstrong, “nós não tínhamos permissão para tocar lá nunca mais. Por muitos anos, nós ficamos com a consciência pesada por sermos rock stars. Pela primeira vez, com American Idiot, nós aceitamos. Nós dissemos ‘Quer saber? Isso é o que nós somos; vamos ter aquela mentalidade de catorze anos de fantasia de ser Pete Townshend rodando a mão ou de ser como Keith Richards. Mas a loucura é que assim que nós aceitamos isso, nossas opiniões se tornaram muito mais poderosas. Nós nos tornamos muito mais corajosos como compositores, e deixamos a mensagem falar – se tornando muito mais intelectual.” Hoje, o Green Day não pede desculpas. “Minha descrição profissional é que eu sou um rock star”, diz Armstrong. “E eu sou bom nisso, sabe? É isso que eu amo fazer. Eu sou um grande fã de música. Eu fico bobo ao falar dos discos do Beatles, Clash, Bob Dylan e Replacements. Quando eu estiver morto, eu quero que alguns garotos fiquem bobos ao falarem dos meus discos, dizendo, ‘Você sabe que você pode ver que em Warning eles começaram a fazer as mudanças até Amercian Idiot.’ E pela primeira vez na nossa carreira a gente pode pegar e olhar para trás. Eu consigo ver a mudança e a evolução, e nossos álbums mais antigos fazem mais sentido agora do que antes.”

 

È meia-noite, e o Green Day está deixando Nashville, embarcando nos ônibus, rumo à jornada noturna para a última parada da turnê, Dayton, Ohio. Tré e Dirnt embarcam em um ônibus, Armstrong e Jason White (amigo íntimo da banda desde os dias de Gilman e segundo guitarrista de apoio dessa turnê) embarcam em outro. Agora nos seus trinta, Green Day diminuiu dramaticamente a festança pesada na estrada. Dirnt fica olhando para a boca de sua garrafa de bebida, Armstrong não partilha mais da erva daninha, e todos os três comem bem e se exercitam para manterem sua energia intacta. Mas Armstrong ainda está acabado pelo show de Nashville, e já está lamentando o fato de que a turnê de quinze meses da banda está quase acabando. Eles vão se apresentar no Late Show With Conan O’Brien para marcar o lançamento do documento da turnê, Bullet in a Bible, e terminar do outro lado do oceano com duas datas marcadas em dezembro. Então, em janeiro, eles vão alugar um estúdio para começarem a pensar em idéias para um novo álbum.

 

Essa noite, ao invés de se jogar em um dos seis compartimentos com camas do ônibus, Armstrong fica acordado até o amanhecer. Uma garrafa de vinho branco na sua frente, ele bebe, fuma cigarros e conversa noite adentro. Ele passa por muitos assuntos, desde o brilhante documentário recente de Martin Scorsese sobre Bob Dylan (“Nós assistimos três vezes”), sua surpreendente e medronta conversa com Paul McCartney, lado a lado, no banheiro (“Era fuckin’ Paul”), até a empolgação de co-escrever duas músicas com Iggy Pop para o mais recente álbum de Iggy, Skull Ring (“Ele é realmente uma cara muito bom, um verdadeiro americano”). Armstrong é o tipo de rock star que, quando dá cinco da manhã, começa a falar não sobre transar com tietes mas sobre a beleza de Adrienne, sua esposa há onze anos. Ele ajoelha-se no corredor entre os assentos e canta uma capela de uma música romântica que escreveu recentemente para ela, depois traz uma foto dela e de seus dois filhos, Joey,10 e Jakob, 7. “Eu apenas quero que eles sejam dois caras normais da East Bay”, ele diz. São cinco e meia da manhã quando ele finalmente se dirige à parte de trás do ônibus e desmaia na cama.

 

Quinze horas depois, Armstrong e seus companheiros de banda sobem no palco do Ervin J. Nutter Center na Wright University em Dayton. Apesar da sua longa noite no ônibus, Armstrong exolode em energia. Andando pelo palco, ele anuncia que não só essa é a última noite da turnê nos E.U.A., mas também é o aniversário de dezessete anos da primeira noite em que o Green Day fez seu primeiro show, quando eram adolescentes. “Então nós vamos tocar o American Idiot inteiro, do início ao fim”, ele berra. “Algo que não temos feito ao vivo em meses.” Eles estão na metade do show quando Armstrong pára para aprsentar a banda. Todas as outras noites, ele tem se apresentado como “George W. Bush” em meio a um monte de vaias. Mas esta noite, por qualquer que seja a razão – reconhecendo que está quase na hora dele retornar à vida de marido, pai e cidadão americano, ou talvez um reconhecimento de que sua vingança está surgindo na forma de uma série de escândalos e gafes políticas – ele sai do roteiro. Depois de apresentar Dirnt, Tré e White, ele segura sua guitarra para o alto e berra, audaciosamente, “E eu sou...Billie Joe Fuckin’ Armstrong”.

Os aplusos são ensurdecedores.

 

 

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Festa Verde

Billie Joe Armstrong lançou seu primeiro single vinte anos atrás por um selo pequeno de Oakland, Califórnia. Hoje, ele e o Green Day estão tocando em estádios para 70.000 fãs. Acima: em um show de natal para a rádio KROQ de Los Angeles, em 1997. Esquerda: Billie Joe e sua esposa de onze anos, Adrienne, no MTV Video Music Awards 2005 em Miami, onde o Green Day ganhou o prêmio de Best Vídeo of the Year por “Boulevard of Broken Dreams”.

 

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Punk rockers maconheiros

Armstrong e Dirnt conheceram Tré em Gilman Street, uma cooperativa punk em Berkeley, Califórnia, que era parte clube rock e parte encosto. Foi lá que a consciência política deles foi formada. "Era tudo desde as bandas que nós ouvíamos", diz Dirnt, "até ficar sentado em lojas de café ou atrás de prédios bebendo cerveja e conversando sobre coisas junto de amigos com inclinação política." Acima: Armstrong, Tré e Dirnt em 1993.

 

3° foto:

 

No começo

Em 1989, Armstrong e Dirnt ainda tinham cabelo comprido e tocavam com o baterista John Kiffmeyer no Sweet Children. Eles mudaram o nome para Green Day e gravaram um EP, 1,000 Hours, pela Lookout! Records. Eles logo se juntaram a Tré, um amigo do fundador da Lookout!, Larry Livermore. De cima para baixo à direita: Armstrong, Dirnt e Kiffmeyer, Gilman Street, em 1989.

 

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Essenciais de Gilman Street:

 

Sewer Trout

"Vagina Envy" (1988)

Formado por um estudade de engenharia da Sacramento State em 1985, pop punkers Sewer Trout lançaram somente um LP antes de entrarem na Well Hung Monks. Sua música mais memorável, "Vagina Envy", é uma música sobre um cara solitário que pensa que a vida seria melhor se fosse uma mulher.

Letra escolhida: "I want a vagina for no more wet dreams/ Embarrassing moments, a bulge in my jeans."

 

The Mr. T Experience

"Bredom Zone" (1988)

Esse republicanos radicais de Gilman Street nunca fizeram sucesso, mas seu som inspirado no Buzzcockse e suas referências da cultura pop de brincalhões vieram antes de Blink 182, Good Charlotte, e muitos outros grupos dos anos 90. Ainda interessados, Mr T lançou seu décimo álbum de estúdio, Yesterday Rules, em 2004.

Letra escolhida: "I live in the boredom zone/ I'm bouncing off the walls/ I'm making paper dolls/ I'm talking to myself"

 

Operation Ivy

"Hangin' Out" (1988)

Líderes da cena de ska-punk da Bay Area, Operation Ivy acabou em 1989 depois de dois anos sendo aclamados pela crítica. Metade do grupo - baixista Matt Freeman e vocalista-guitarrista Tim Armstrong - formaram o Rancid.

Letra escolhida: "We're adrift for another day/ How far we surpass the nameless mass/ In endeavors so meaningless/ I look for some kind of meaning."

 

Steel Pole Bath Tub

"Bee Sting" (1989)

Com o nome tirado de uma revista de crime (uma mistura de arma assassina e a cena do crime), Steel Pole Bath Tub sobressaía em criar barulho, desordenadas versões de padrões do rock misturadas a diálogos de filmes e séries de tv obscuros.

Letra escolhida: "Where I was born there were no flowers/ I can do without, so fuck you coward."

 

Cripshrine

"Construction" (1989)

Uma seminal banda de Berkeley obcecada em não se vender, até nos padrões punks -  orgulhosos em pegar carona para ir e voltar de shows e tocando com equipamento usado. Suas músicas eram carregadas de punk tirado do playbook dos Dead Kennedys, misturado com faixas pessoais altamente carregadas.

Letra escolhida: "With our invented/ Authority we begin our destruction/ Started thousands of years ago and now/ There's no escaping - concrete and steel."