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Depois de 14 anos, seis álbuns e quase 20 milhões de cópias vendidas no mundo todo, você pensaria que o Green Day não tem mais nada à provar, não?
Na década que o trio de Bay Area explodiu no mainstream com o multi-platinado "Dookie" de 1994, o vocalista/guitarrista Billie Joe Armstrong, o baixista Mike Dirnt e o baterista Tré Cool evoluíram de moleques levados à respeitados punks conscientes, de quem a influência pode ser escutada no som de bandas como Good Charlotte, A Simple Plan e New Found Glory. Com sua habilidade de escrever hinos grudentos de 3 minutos intacta, o Green Day poderia facilmente passar os próximos dez anos sossegados em seu status, reputação e ganhando os royalties de seus outros álbuns.
No entanto, American Idiot (Warner Bros.), o primeiro álbum de estúdio da banda desde o "Warning:" de 2000, não é nada mais que uma completa leitura do que fizeram no passado. Com suas músicas interconectadas, mudanças de tempo abruptas e não um, mas dois épicos de nove minutos ("Jesus Of Suburbia" e "Homecoming"), American Idiot é facilmente o álbum mais ambicioso do grupo até hoje, uma genuína ópera rock que vem de obras como a "Quadrophenia" do The Who. E mesmo sendo tão melódico e pegajoso como seus outros álbuns, American Idiot também é o álbum mais explicitamente político com músicas como ''Holiday “, “Letterbomb" e a faixa-título que navega entre a paranóia, alienação e e raiva que anda afetando muitos sob a administração de George W. Bush.
Ironicamente, o novo álbum do Green Day, talvez seja um animal completamente diferente, se alguém não tivesse desaparecido com as fitas master originais da banda no começo de 2004. Para conferir toda a história, Revolver se encontrou com a banda em seu estúdio de ensaios em Oakland, Califórnia.
Revolver: Vocês entraram em estúdio para gravar uma ópera rock ou um álbum conceitual?
Billie Joe: Bem, nós já tínhamos algumas músicas gravadas, muitas para um álbum e então, as fitas master acabaram sendo roubadas. Nós ficamos muito desanimados, bem, nós ficamos MUITO desanimados e a gente dizia "O que vamos fazer agora?" Então decidimos começar do zero. Nós entramos em estúdio e começamos a nos esforçar para fazer as coisas, ou seja, escrever o novo material. E então, a música "American Idiot" veio, do nada e ela era muito melhor do que as 4 ou 5 músicas novas que tínhamos antes, então, marcamos nosso ponto de partida ali. E então, um dia o Mike estava aqui no estúdio sozinho e ele escreveu uma música de 30 segundos.
Mike Dirnt: Era como uma mini-mini ópera e tal...
Billie Joe: Nós entramos e ele tocou a música para nós e nós fizemos "Whoa!!" E depois, acabei escrevendo uma outra parte de 30 segundos e amarrando na parte do Mike, depois, o Tré escreveu mais uma parte de 30 segundos. E todo esse arco começou a se formar, algo que começou como uma brincadeira, passou à algo mais sério. E acabou saindo esse épico de nove minutos, tipo uma ópera rock. Então dissemos ''É isso que vai satisfazer a gente, estamos rindo, estamos nos divertindo, é energia pura... Nós deveríamos estar fazendo isso antes!"
Revolver: Naquela época vocês estavam resolvendo algumas coisas entre vocês, não?
Mike Dirnt: Bem, eu acho que nós queríamos reestabelecer nossos papéis na banda, como amigos e como indivíduos, coisas desse tipo. Era mais não termos medo de falar o que pensamos, não somente em coisas ruins, mas em coisas boas também.
Billie Joe: Eu também acho que fomos encarados com isto onde estamos em uma banda há tanto tempo que estávamos correndo o risco de nos repetirmos demais. E eu acho que, com aquele álbum que foi roubado, nós estávamos nos repetindo mesmo. Então dissemos "Nós temos que levar isto à outro nível, mas como vamos fazer isto?" Nós tínhamos que esquecer tudo e entrar neste modo de produção onde era criatividade total. E, você sabe, sou um grande fã de música também. Meus heróis todos fizeram álbuns monumentais, mas que não necessariamente foram em cojunto com a evolução da banda, mas que se tornaram nestes álbuns que você sempre escuta de novo, estes grandes pontos de referência em suas carreiras. E eu acho que nós queríamos ter um álbum deste tipo.
Revolver: Dê-me exemplos destes álbuns monumentais...
Billie Joe: Não sei, qualquer coisa entre "Tommy" e "Ziggy Stardust" até Sgt. Pepper's e, hmmm, "Chipmunk Punk" (risos). Nós queríamos ter algo onde quebrássemos todas nossas regras e disséssemos "Foda-se o que anda rolando na música hoje em dia!" Porque a maioria das coisas que andam rolando com o rock and roll hoje em dia são tão SEM ambição. Eu acho que o motivo de muitas bandas de rock não estourarem hoje em dia é que elas seguem as regras que as pessoas pensam que você dee seguir, ou fazer. E para nós, não é um problema do Green Day, nós queremos fazer parte desta evolução do rock, ponto final.
Revolver: Mas é engraçado, pois a idéia de álbuns conceituais ou óperas rock era algo que as bandas dos anos 70 estavam lutando contra.
Billie Joe: Bem, você sabe, este é o problema com a cena punk rock, ou ao menos com uma parte dela: Todos têm medo de serem ambiciosos. Não existe razão para você não crescer e não existe razão para você não fazer um álbum conceitual. Muitos álbuns punk são álbuns conceituais, mesmo. "Nevermind The Bollocks" ou "London Calling", estes álbuns podem ser analisados como conceituais. Ou até mesmo o primeiro álbum dos Ramones. Ou até mesmo, Dookie, até certo ponto. Sempre tive muito orgulho de ser um punk-rocker, mas como ser humano e músico eu quero continuar crescendo. Sempre começa com o punk para mim, toda vez, mas você deve evoluir em idéias por cima dessa palavra. Não é que queremos nos tornar o Jethro Tull ou Phish, ou nada deste tipo. Com este álbum, foi mais algo tipo, como nós podemos fazer uma ópera rock ou um álbum conceitual que tenha a mesma energia do Dookie?
Revolver: Você pode nos dar algumas dicas com relação ao enredo do álbum?
Billie Joe: O álbum meio que conta a história deste cara, Jesus Of Suburbia. Ele tem entre 19 e 21 anos, mais ou menos, está preso nesta cidade pequena e ele simplesmente não aguenta nada mais lá, as pessoas, o 7-Elevenz que cresceu junto com ele, seus amigos, as instituições que têm estado com ele sua vida toda. Ele finalmente encontra a raiva e coragem suficientes para ir embora da cidade. Então, muda-se para a cidade e procura pessoas com o mesmo estado de espírito que ele. Ele acaba descobrindo que existem várias opiniões, idéias, pontos de vista e quase nenhum é igual. E então ele se tromba com um cara chamado St. Jimmy.
Revolver: E esse cara aparece nas letras como tipo um "Pai do punk", certo?
Mike Dirnt: Exatamente! Você acertou em cheio. Ele é um cara totalmente carismático, totalmente instigante psicóticamente. O tipo de pessoa que atrairia um jovem que está crescendo e quetionando suas próprias crenças.
Billie Joe: St. Jimmy é tipo um cruzamento entre Darby Crash (vocalista do Germs) e John The Baptist (risos). Mas ele também e uma má influência. E depois, tem esta garota que aparece em "She's a Rebel". Ela é uma garota de espírito puro, alguém com quem você se identifica certamente. E sem falar muito, em qual direção você acha que ele vai? Com sua identidade. Ele vai com St. Jimmy ou com a garota? Este também, é um tema que corre ao redor do álbum: Ele vai com a raiva ou com o amor?
Mike Dirnt: Nós tomamos liberdade de sairmos um pouco da história também. "Wake Me Up When September Ends" é uma parte onde o Billie sai totalmente da história. Mas ao mesmo tempo, ela se incorpora muito bem musicalmente e emocionalmente com o resto do álbum.
Revolver: “American Idiot’’ foi a primeira música das novas que tinha tom político?
Mike Dirnt: É engraçado, aquela música determina o clima do personagem para a ópera rock, mas também marcou o clima que fez o Green Day ir nesta direção.
Tré Cool: Depois que fizemos esta música, nós sabíamos onde tínhamos de ir. Tão apavorante quanto estar no pico desta montanha, nós sabíamos que tínhamos de estar ali em cima. Nós não queríamos passar nenhum arrependimento. Nenhum sentimento que poderíamos ter feito isto melhor. Foi tipo: "Lá vamos nós!"
Billie Joe: Ser tão político assim foi novidade para nós. Assim, nós sempre fizemos coisas em nossa comunidade. Shows beneficentes, coisas deste tipo, mas... Eu não havia pensado no que as pessoas pensariam depois de ter escrito a música. Sabe, escrever um verso como "Well maybe I'm the faggot America/I'm not a part of a redneck agenda", foi tão relaxante escrevr isso. E depois, mais tarde estávamos escutando e eu disse "Será que alguém vai se importar de eu dizer isso?" e o Mike me disse "Você pode dizer o que quiser".
Revolver: As frustrações que você expressa nesta música, foram criadas pelas pessoas no poder este tempo todo?
Billie Joe: Sim. Sou uma vítima de assistir muita televisão, assim como muita gente também é. Eu absorvo toda a informação desnecessária, qualquer coisa entre Fox News, CNN até o reality show da Jessica Simpson e a merda do cinto de castidade com seu pai e toda essa loucura (risos). E tipo, como se estivéssemos enviando todas estas mensagens puritanas, a coisa de sexo/não sexo e de repente corta para o comercial de Clearasil. As mensagens misturadas da mídia têm se tornado grande parte da Cultura Americana e tudo o que isto faz é causar ainda mais confusão para as pessoas.
Mike Dirnt: É meio como aquele momento que você está escutando rádio, diringindo pela estrada e a última coisa que repara é que você acaba de escutar 5 minutos de comerciais sem parar e você diz "Mas que porra?" É meio que assim, mas em uma escala bem maior. Você fica louco. "Eu não aguento mais essa merda! Cala a boca porra!"
Billie Joe: Mas no lado político, não queríamos que o álbum tivesse um apelo de pregação. Nós queríamos mostrar que estamos perdidos nesta confusão toda, assim como todas as outras pessoas.
Revolver: Ao invés de dizer apenas "Bush Sucks!", as músicas captam realmente toda a angústia e alienação que os americanos estão sentindo no momento e a dificuldade de ser um indivíduo numa época onde muitos estão felizes de fazer parte das pessoas que balançam bandeiras por aí.
Billie Joe: Sim. Esta é uma das coisas que o álbum está tentando descobrir. Como ser um indivíduo quando se está perdido nesta confusão e você sente que sua individualidade está sendo retirada de você.
Revolver: Vocês têm medo que as pessoas peguem seu álbum, ouçam e digam "Fodam-se eles, esses caras odeiam a América, mais nada”?
Mike Dirnt: Eu acho que não. Obviamente o álbum não é antiamericano. Umas das coisas mais americanas que você pode fazer, é dar sua opinião e se você vê algo dando errado, você deve falar. Eu acho que estamos em um tempo onde as pessoas têm medo de falar e têm medo de questionar também.
Tré Cool: Nós estamos a fim de ver muita discussão sobre o álbum.
Billie Joe: Eu dou boas vindas à isso, sabia? Para mim, isto é rock and roll. É para ser confrontante e subversivo.
Revolver: Vocês estão desapontados por algumas bandas não terem se levantado e questionado as coisas que questionam em American Idiot?
Billie Joe: Um pouco. Sem dar nome aos bois, existem poucas bandas que, apesar do The Clash as terem influenciado, me deixou surpreso aparecerem e dizerem "Não somos políticos". E bem, isto meio que enche o saco. Mas existem pessoas como o Fat Mike do NOFX que apareceu com o "Rock Against Bush" e o Punkvoter.com, ele encarou a coisa de frente.
Mike Dirnt: Você olha para ele e diz "Oh! NOFX, eles escrevem músicas engraçadas." Mas este cara se tornou alguém que você pode olhar como um modelo.
Billie Joe: Até mesmo bandas como Yellowcard e New Found Glory estão no TRL e coisas deste tipo, mas eles apareceram e se manteram em suas crenças e isto é algo admirável.
Revolver: Vocês apoiam John Kerry para Presidente?
Billie Joe: Bem, eu vou votar nele. Votei no Nader na última eleição, mas fazer algo deste tipo agora seria uma grande indulgência. É mais que indulgent você votar pela sua consciência. (risos) É algo apavorante de se pensar, mas é como as coisas estão agora. John Kerry tem uma sujeira enorme para limpar, não acho que ele vai conseguir fazer isto, mas com certeza ele é o menor dos dois diabos.
Tré Cool: O primeiro ponto do plano de governo do John é livrar a América do Bush! (risos) O slogan da campanha do cara é "Eu não sou o Bush!"
Mike Dirnt: "Eu minto para menos pessoas do que ele"
Billie Joe: É legal o fato que o Kerry foi para o Vietnam, mas aí mudou sua visão com relação à guerra e jogou suas medalhas fora.
Mike Dirnt: Eu também acho legal que ele toca guitarra. E eu acho legal sua opinião de que você deve estar à salvo em sua casa e ser respeitado mundo afora. E como uma banda que viaja o mundo, nós vemos como as pessoas olham para os Americanos como turistas maus. É muito importante você ter uma visão global e eu acho que isto era algo que o Clinton tinha, pelo menos.
Revolver: Quando vocês dizem "redneck agenda" em American Idiot, vocês quiseram dizer com relação à esta mentalidade, nós somos o número um do mundo então podemos fazer o que quiser?
Billie Joe: O conceito de patriotismo aqui é muito diferente de como é no resto do mundo. Nós tocamos na Escócia uma vez e no fim do set, um pouco antes do bis, as pessoas estavam cantando o hino escocês. E isto foi fantástico, foi tipo, milhares de anos de história naquele único lugar e não era com relação à ser o número um era sobre você ser unido com as pessoas. Entretanto, nos EUA é mais sobre você ser o número 1 mesmo. As pessoas dizem ''Nós somos o melhor país do mundo!" Mas ao mesmo tempo nós somos muito desunidos. Mas as táticas caipiras que me refiro e que não quero fazer parte, é pelo fato da americanização de lugares que não querem ser americanizados. Aquelas pessoas no Iraque ainda fazem parte de uma cultura que é muito mais velha que a nossa e não têm nada a vr com o mundo Oeste. Nós não podemos pensar que podemos entrar num país e forçar as coisas garganta abaixo das pessoas. E os "caipiras" que estão no comando hoje em dia pensam que liberar pessoas significa privá-las de suas culturas e cultivar nestas pessoas a nossa cultura, tipo, Mc Donald's, KFC e Wal-Mart para todo mundo! E isto não é algo que representa a mim e não representa muita gente neste país também.
Revolver: Vai ser um desafio tocar "Jesus Of Suburbia" e "Homecoming" ao vivo?
Mike Dirnt: Nós já conseguimos tocá-las, até o final. É muito engraçado, porque isso SIM é um desafio. No nosso último show em L.A., nós tocamos "American Idiot" e então "Jesus Of Suburbia" inteira. Todo mundo dizia ''Mas que merda é essa?" Mas eu consegui ver dois carinhas no fundo indo à loucura e dizendo "Mas nem fodendo!!". Eles estavam loucos, vibrando juntos e entendendo o que estávamos fazendo. E todo o resto estava tipo "Duh!..." Não acho que tenham pedras que ainda não foram levantadas por nós com este álbum. Houve muito sacrifício com este álbum, com relação à nossas vidas pessoais, mas é isto que fazemos e estamos muito felizes com o que fizemos.
Revolver: Que tipos de sacrifícios?
Mike Dirnt: Bem, nós passamos seis meses em Los Angeles, trabalhando muito! Antes de entrar para a gravação deste álbum, eu casei. E no dia em que terminamos a gravação, minha esposa disse "Eu não consigo mais fazer isto." Nós estamos juntos há sete anos e ela finalmente soube sempr ia estar em segundo lugar com relação à banda. E ela ainda apoia muito a banda, mas ela tinha que ser honesta consigo mesma.
Tré Cool: E eu me divorciei também.
Billie Joe: As coisas estão em mim agora. Na verdade, Existem coisas que estão sendo pagas agora! Mas para mim, foi me livrar do medo de não dar às pessoas o que eu acho que elas querem. O medo com este álbum era "Meu Deus, esta música tem nove minutos de duração, as pessoas vão achar que estamos loucos da cabeça!" (risos) Mas depois de escrever 'Jesus Of Suburbia', foi tipo, Caralho, não tem como voltar atrás agora! De forma alguma eu quero fazer outro Insomniac ou outro Dookie. Eu amo aqueles álbuns, mas acho que estaria enganando à nós mesmos e não seríamos a banda que realmente somos.
Mike Dirnt: Agora, nós estamos prontos para sair e tocar este álbum, falar sobre ele e fazer tudo o que quisermos para este álbum nos próximos dois anos e meio. Foi muito mais trabalho do que qualquer coisa que já fiz até hoje, mas acho que estamos completamente satisfeitos com isto. Com nossos outros álbuns, até mesmo com Dookie, sempre houve um pouco de ambivalência por nossa parte. Nós temos certeza que é bom, mas será que temos certeza que temos certeza? Mas, com este álbum, quando finalizamos ele, pudemos dizer "Pronto! Acabou!"
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