
“MAIS QUENTE QUE O INFERNO"
O Green Day sai do esconderijo e causa histeria de massa sob o disfarce de
Foxboro Hot Tubs...
Às 15h30 um cara baixinho, com um cabelo descolorido todo desarrumado mostrando
as raízes castanhas caminha pela Sunset Strip em LA. Seu chapéu é colocado de
lado e para baixo em sua cabeça, no melhor esforço para manter o disfarce de si
mesmo, mas ele não deveria ter se preocupado. Ninguém, absolutamente ninguém
naqueles restaurantes chiques que ficam nas calçadas sequer levantaram uma
sobrancelha ou um dedo com a unha que acabara de ser feita em sinal de que o
haviam notado. Mais um punk, devem ter pensado, enquanto ele anda...
O homem em questão, no entanto, Billie Joe Armstrong do Green Day, sofreria uma
reação completamente diferente se estivesse andando sozinho pela Strip. Algumas
centenas de metros á frente, enfileirando-se do lado de fora de uma casa chamada
The Roxy com capacidade para cerca de 500 pessoas, estão 200 pessoas. Algumas
delas estavam ali desde as 15h00 do dia anterior. Se caso ele aparecesse por
ali, enquanto as pessoas esperam na fila para assistirem ao mais novo projeto
paralelo ao Green Day, Foxboro Hot Tubs tocar à noite, o caos iria reinar. Caso
ele arriscasse uma pequena olhada na legião de fãs com camisetas do Green Day,
tattoos do Green Day e com Green Day explodindo em seus i-Pods, ele teria que
lutar um pouco para escapar.
O Green Day tem uma espécie de história com bandas paralelas, com o Pinhead
Gunpowder de Armstrong, The Frustrators de Mike Dirnt, os mascarados new-wave do
The Newtork e agora isto: The Foxboro Hot Tubs. Intitulado com o nome de um bar
onde a banda descreve como sendo “um local onde íamos tomar cerveja e dar em
cima da mulherada tarde da noite”, esta nova aventura faz a banda encontrar-se
exatamente no meio entre a composição e gravação do álbum que será o sucessor do
multi-platinado American Idiot de 2004. Com as participação de Dirnt, Tré Cool,
o guitarrista das turnês da banda Jason White, o multi-instrumentista Jason
Freese um outro guitarrista chamado Kevin Preston, eles estavam certos de manter
suas identidades em segredo – tanto que o próprio Armstrong tem usado o nome de
Reverend Strychnine Twitch. “Amamos tocar canções e sermos espontâneos,” foi
tudo o que disseram á imprensa. “Após algumas jams de madrugada e algumas
garrafas de vinho, estávamos inspirados para gravar umas canções em máquinas 8-track.
Achamos que a única similaridade entre nós e o Green Day é que somos a mesma
banda. Basicamente é só isso.”
O material em si que faz parte do álbum de estréia da banda “Stop Drop And Roll!!!”
é uma bem sacada levada de um garage-rock dos anos 60. Tendo como influência
bandas como The Kinks, The Stooges e a psicodelia dos hippies dos anos 60
Strawberry Alarm Clock, são canções que, se você acredita em Armstrong,
apareceram como parte do processo criativo para o novo álbum do Green Day.
Entretanto, as letras das canções não lembram Green Day já faz muito tempo. Uma
vez que Armstrong berra letras como “16 and a son of a bitch! Got a gun and a
strychnine twist”, por debaixo de seu alter-ego, fica muito claro que a música é
pelo prazer da diversão e pela alegria de ver tudo pegando fogo.
Se o Green Day está sofrendo qualquer tipo de pressão no lançamento do sucessor
de American Idiot, então a banda está fazendo um belo de um trabalho escondendo
isto. Às 18h00 desta terça-feira em Los Angeles, eles podem ser encontrados com
uma caravana e os colegas de ‘Hot Tubs alocados e andando livremente pela
piscina de um hotel chamado Sunset Marquis. Tré Cool está virado para trás
conversando, Mike Dirnt ri sem parar com o guitarrista Kevin Preston, enquanto
cervejas e pratos de comida são postos à sua frente. Ninguém nesta viajem ultra
especial está aqui para incomodá-los enquanto as risadas ficam cada vez mais
altas, o que combina muito bem com eles. Uma vez que este projeto não foi criado
para que conseguissem dinheiro, entrar na história das paradas musicais (o que
conseguiram com American Idiot) ou fazer tipo. Ao contrário dos argumentos
políticos de American Idiot, o Foxboro Hot Tubs foi criado para aliviar o
processo criativo da banda em estúdio, uma chance de recarregarem as baterias
antes que o trio fique trancado em estúdio durante as gravações de seu novo
álbum. E estão determinados a fazê-lo da maneira mais feroz possível.
“ESTA TOUR TEM
SIDO UM CAOS” – Billie Joe Armstrong
Quatro horas
antes da banda estar no palco, a festa vai para dentro e fora da piscina. No
interior escuro do bar do Sunset Marquis, rodadas de bebidas saem uma atrás das
outras. Ao redor de uma pequena mesa redonda sentam a banda e seus managers, com
cervejas para todo lado e sorrisos na cara de todo mundo. Se você perguntar para
Billie Joe sobre o show que irão fazer, ele responderá com uma risada sacana.
“Se estou feliz em tocar? Claro! Esta tour tem sido um caos. Tem sido tão ótimo
e será um estouro.”
Até então, foram realizados shows na cidade-natal de Armstrong, Crockett, em
Oakland, New Orleans, Dallas em San Diego e ainda mais longe têm sido
presenteados com resenhas extasiantes. Com os ingressos á venda apenas no
horário do show, fãs têm chegado ás casas com dias de antecedência para serem os
primeiros na fila. O que eles têm visto dentro destas casas tem tocado fogo em
salas de discussão na Internet. – Shows suados, festas banhadas à cerveja,
orgãos Hammond estonteantes, invasões de palco, moshes e uma atmosfera meio como
um bacanal que faz com que fãs sejam retirados do mosh-pit inconscientes, mas
com um sorriso enorme em seus rostos. Houveram relatos de pessoas em cadeiras de
roda que invadiram o palco, de policiais sendo socados na cara, desmaios,
desesperos, sangue, sexo e cenas que não se viam desde os tempos de Sodoma e
Gomorra.
No momento em que Armstrong e cia. começam a ficar bem bêbados no bar do Sunset
Marquis, quem diz que hoje à noite será diferente?
Meia hora antes do início do show, a excitação na enorme fila que chega a dobrar
o quarteirão começa a aumentar. Para uma banda do status do Green Day, tocar em
um palco tão pequeno é algo extraordinário – pense no Foo Fighters tocando no
Barfly em Londres, o Red Hot Chilli Peppers tocando no Cockpit em Leeds e o
Metallica tocando seu set no Spring & Airbrake em Belfast.
Nos primeiros lugares da fila estão a mãe e filha Sharon e Laurel White. Elas já
estão aqui há cerca de 30 horas após acamparem em cima de cadeiras de praia
cobertas com cobertores. “Eu estive na estréia da tour em Oakland,” diz Sharon.
“Foi tão louco, era em um bar pequeno, sem ar-condicionado. Foi absurdamente
quente, divertido e insano. Eu acho que eles têm muitos familiares por ali – a
banda do irmão de Billie Joe abriu o show e a atmosfera era muito boa.”
A dedicação destes fãs para a banda não é nada mais do que uma anomalia, neste
ponto. Um pouco após a sua chegada ás 15h00 da tarde anterior, mais e mais fãs
apareceram na Sunset Strip, carregando pilhas de cobertores, travesseiros e
cartas de baralho para mantê-los ocupados. Então conhecemos a família Jose do
Texas. Eles chegaram aqui após uma viagem cansativa de mais de 27 horas de
ônibus e não fazem a mínima idéia de como irão para casa. “Nós tínhamos
planejado ir embora com alguns parentes, mas eles já foram embora,” diz Cindy
Jose, com sua filha e amigos na fila. “Não me preocupo em voltar, não. Fomos ao
show em Dallas e foi a coisa mais fantástica que já vi na vida. Minha filha
subiu no palco para tocar maracas e foi fantástico! Para mim, foi melhor do que
um show do Green Day. Green Day não é nada comparado com isso. Este shows são
extremamente insanos.”
E então, conhecemos Corey Pavuk, um chef de Las Vegas. Ele dirigiu por seis
horas á velocidades altíssimas cruzando o deserto da Califórnia no mesmo minuto
em que seu turno no bistrô do Caesar’s Palace terminou. Ele só voltará ao carro
quando acabar o show, lá para as 02h00 da manhã, para mais seis horas de viagem
cruzando o deserto. “Eu acho que ainda consigo dormir uma hora quando chegar em
casa, e então tenho mais um turne de 12 horas começando às 09h00.” Ele o olha
como se você fosse louco de perguntar-lhe o por quê dele passar por isso. “Por
que é o GREEN DAY!!! Por que você não faria isso?”
A história é a mesma em toda a fila. “Espero caos absoluto,” “rock n’ roll
quente, suado e muita diversão,” diz Cody Breedlove, orgulhosa usando uma
camiseta do The Network. Outra pessoa é Carlos Garcia, aqui em seu primeiro show
ao vivo. “Disse para todos na escola que eu viria, então espero conseguir
entrar,” ele diz. “Vai ser tão foda!”
“Eu peguei o avião às 09h00, cheguei aqui o mais rápido que pude e pegarei outro
avião amanhã de manhã,” diz Bruce Haney de 23 anos de idade. “Eu irei dormir
aqui ou no aeroporto até meu avião sair.” “Chegamos aqui ás 06h00. Já fui aos
shows de Pinhead Gunpowder, The Network e Green Day, claro,” diz Tawny Kim,
deitada no colo do namorado e não demonstrando cansaço algum desde que chegou.
“Se eu prefiro que eles tivessem montado o Foxboro Hot Tubs ou terminado o novo
álbum do Green Day? Acho que deveriam ter feito os dois, exatamente como eles
são.”
E então, de repente, a porta abre e todo mundo vai para dentro, correndo para
chegarem na frente do palco, se espremendo na frente do palco quase sem
barreiras para ficarem apenas ali, perto o suficiente para sentirem o calor dos
corpos de seus heróis, perto o bastante para serem inundados com seu suor.
“Cheguem mais
perto de mim!” – Billie Joe Armstrong
“Aqui estamos em
Hollywood, Califórnia,” grita Billie Joe, resplandecente em um óculos de
armações brancas e uma espécie de cajado com a cabeça de um jacaré em cima.
“Cheguem mais perto de mim! Eu sou o Reverend Strychnine Twitch e nós somos os
Foxboro Hot Tubs!” Com este início, o Foxboro lança uma rajada de um rock ‘n
roll bêbado na platéia.
Cada um deles, se tivessem cada um, um minuto para si, bebem uma lata de cerveja
atrás da outra, riem histericamente e então continuam. Armstrong, livre dos
trabalhos de guitarrista, corre pelo palco como um pregador maníaco gritando,
xingando e berrando para a platéia na sua frente, mandando que se movam, dancem
e se requebrem loucamente. Eles respondem como se fossem uma fonte de energia,
se jogando pelo ambiente sem cuidado algum. Após, Armstrong pega o chapéu de um
fã e o coloca no topo de sua cabeça. Um segundo depois, joga o mesmo pelo local,
puxa uma pessoa no palco, dá-lhe um beijo no rosto e então se joga junto com a
pessoa na platéia para mais um mosh. Ele pega mais uma cerveja e a toma como se
estivesse respirando, enquanto a platéia começa a subir no palco. Eles o
levantam e ele é abraçado, apertado e beijado pelos mais de 30 fãs que o estão
cercando. Nos segundos entre as canções, Armstrong respira, ri até dizer chega,
brinca como um bebê e então começa gritos de “One-Eyed-Jack”, para sua equipe de
jacarés, elevando a loucura do local á níveis máximos.
Ele inicia outra canção, nunca deixando a tensão da atmosfera do local ficar
abaixo do nível “incendiária”. A banda atrás dele é coesa, uma levada
garage-rock que tem sua base em solavancos de um orgão Hammond e a sempre
extremamente forte e unida cozinha de Tré Cool e Mike Dirnt. “Se você não está
dançando, você é um merda,” grita Armstrong mais uma vez, não deixando ninguém
respirar e muito menos o carnaval parar.
“Onde está a porra da cerveja?” Ele grita, pegando talvez a sua Vigésima cerveja
da noite e a esvaziando em sua garganta. Ele pega mais uma, chacoalha a lata e
joga grande parte em sua cabeça. O que sobra, ele joga na platéia, antes de
jogar a lata para trás, por cima de Tré Cool fazendo com que a lata esmague na
parede.
“Só tem uma coisa que está me deixando puto,” ele fala no microfone. “Não tem
muitas pessoas aqui em cima do palco!” Em questão de segundos, mais uma invasão
de fãs – sem acreditar em sua sorte – cerca a banda. É um palco pequeno, com
cerca de 20 passos de largura, mas logo tem mais pessoas em cima do palco do que
embaixo, na pista. Enquanto os seguranças tentam fazer com que as pessoas voltem
para onde estavam, Billie Joe faz o contrário, puxando mais pessoas para o
palco, ao mesmo tempo que canta, balança os braços e chacoalha a cabeça para
tirar o suor.
“Preciso de mais uma cerveja, cadê a cerveja?” Armstrong grita mais uma vez. Ele
olha ao redor e percebe que bebeu tudo o que tinha no palco – então ele
simplesmente pede uma no bar, pedindo para que a cerveja seja passada para ele
por cima das cabeças das pessoas no palco. Uma canção depois, a cerveja chega,
ele a bebe e pede mais uma “AAAAWOOOOOO!” ele grita, no momento em que a sua
banda mais um lance de guitarras.
Quando você olha, fica quase impossível de dizer quem está se divertindo mais, o
Foxboro Hot Tubs ou a platéia que passou o dia na porta da casa de shows para
vê-los tocar. Mas, na verdade, todas as pessoas aqui são únicas e ao mesmo tempo
iguais – a banda e a platéia complementando a noite de cada um. Esta é a maior
festa que existe, uma festa onde não existem barreiras entre os megastars
multi-milionários e seus admiradores mais leais em sua frente. No momento em que
um fã levanta Armstrong, passa seus braços ao redor dele e o beija na bochecha,
outro fã está fazendo o mesmo com Dirnt. O guitarrista Kevin Preston segura sua
guitarra enquanto uma garota bate em suas cordas e em qualquer lugar que você
olhe, no rosto de cada um, existe um sorriso enorme. Isto é simplesmente
extraordinário: um show íntimo, brilhante de uma banda que conquistou o mundo
para uma platéia seleta. É o tipo de coisa que entra para a história, que vira
uma lenda, o tipo de show que, em alguns anos, apenas meras 500 pessoas dirão
“eu estive lá”.
Eventualmente, banhados em suor e extasiados de felicidade, eles andam pelo
palco. A realização do momento é estampada em suas faces para todos poderem ver.
E então, a platéia se vai para a noite de LA: de caras vermelhas, bochechas
cheias de sangue mas felizes e contando a melhor história de suas vidas, por que
o Rock N’ Roll não pode ser melhor do que isto.”
Por: Tércio Testa