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Kerrang 2008


“MAIS QUENTE QUE O INFERNO"

O Green Day sai do esconderijo e causa histeria de massa sob o disfarce de Foxboro Hot Tubs...

Às 15h30 um cara baixinho, com um cabelo descolorido todo desarrumado mostrando as raízes castanhas caminha pela Sunset Strip em LA. Seu chapéu é colocado de lado e para baixo em sua cabeça, no melhor esforço para manter o disfarce de si mesmo, mas ele não deveria ter se preocupado. Ninguém, absolutamente ninguém naqueles restaurantes chiques que ficam nas calçadas sequer levantaram uma sobrancelha ou um dedo com a unha que acabara de ser feita em sinal de que o haviam notado. Mais um punk, devem ter pensado, enquanto ele anda...

O homem em questão, no entanto, Billie Joe Armstrong do Green Day, sofreria uma reação completamente diferente se estivesse andando sozinho pela Strip. Algumas centenas de metros á frente, enfileirando-se do lado de fora de uma casa chamada The Roxy com capacidade para cerca de 500 pessoas, estão 200 pessoas. Algumas delas estavam ali desde as 15h00 do dia anterior. Se caso ele aparecesse por ali, enquanto as pessoas esperam na fila para assistirem ao mais novo projeto paralelo ao Green Day, Foxboro Hot Tubs tocar à noite, o caos iria reinar. Caso ele arriscasse uma pequena olhada na legião de fãs com camisetas do Green Day, tattoos do Green Day e com Green Day explodindo em seus i-Pods, ele teria que lutar um pouco para escapar.

O Green Day tem uma espécie de história com bandas paralelas, com o Pinhead Gunpowder de Armstrong, The Frustrators de Mike Dirnt, os mascarados new-wave do The Newtork e agora isto: The Foxboro Hot Tubs. Intitulado com o nome de um bar onde a banda descreve como sendo “um local onde íamos tomar cerveja e dar em cima da mulherada tarde da noite”, esta nova aventura faz a banda encontrar-se exatamente no meio entre a composição e gravação do álbum que será o sucessor do multi-platinado American Idiot de 2004. Com as participação de Dirnt, Tré Cool, o guitarrista das turnês da banda Jason White, o multi-instrumentista Jason Freese um outro guitarrista chamado Kevin Preston, eles estavam certos de manter suas identidades em segredo – tanto que o próprio Armstrong tem usado o nome de Reverend Strychnine Twitch. “Amamos tocar canções e sermos espontâneos,” foi tudo o que disseram á imprensa. “Após algumas jams de madrugada e algumas garrafas de vinho, estávamos inspirados para gravar umas canções em máquinas 8-track. Achamos que a única similaridade entre nós e o Green Day é que somos a mesma banda. Basicamente é só isso.”

O material em si que faz parte do álbum de estréia da banda “Stop Drop And Roll!!!” é uma bem sacada levada de um garage-rock dos anos 60. Tendo como influência bandas como The Kinks, The Stooges e a psicodelia dos hippies dos anos 60 Strawberry Alarm Clock, são canções que, se você acredita em Armstrong, apareceram como parte do processo criativo para o novo álbum do Green Day. Entretanto, as letras das canções não lembram Green Day já faz muito tempo. Uma vez que Armstrong berra letras como “16 and a son of a bitch! Got a gun and a strychnine twist”, por debaixo de seu alter-ego, fica muito claro que a música é pelo prazer da diversão e pela alegria de ver tudo pegando fogo.

Se o Green Day está sofrendo qualquer tipo de pressão no lançamento do sucessor de American Idiot, então a banda está fazendo um belo de um trabalho escondendo isto. Às 18h00 desta terça-feira em Los Angeles, eles podem ser encontrados com uma caravana e os colegas de ‘Hot Tubs alocados e andando livremente pela piscina de um hotel chamado Sunset Marquis. Tré Cool está virado para trás conversando, Mike Dirnt ri sem parar com o guitarrista Kevin Preston, enquanto cervejas e pratos de comida são postos à sua frente. Ninguém nesta viajem ultra especial está aqui para incomodá-los enquanto as risadas ficam cada vez mais altas, o que combina muito bem com eles. Uma vez que este projeto não foi criado para que conseguissem dinheiro, entrar na história das paradas musicais (o que conseguiram com American Idiot) ou fazer tipo. Ao contrário dos argumentos políticos de American Idiot, o Foxboro Hot Tubs foi criado para aliviar o processo criativo da banda em estúdio, uma chance de recarregarem as baterias antes que o trio fique trancado em estúdio durante as gravações de seu novo álbum. E estão determinados a fazê-lo da maneira mais feroz possível.

“ESTA TOUR TEM SIDO UM CAOS” – Billie Joe Armstrong

Quatro horas antes da banda estar no palco, a festa vai para dentro e fora da piscina. No interior escuro do bar do Sunset Marquis, rodadas de bebidas saem uma atrás das outras. Ao redor de uma pequena mesa redonda sentam a banda e seus managers, com cervejas para todo lado e sorrisos na cara de todo mundo. Se você perguntar para Billie Joe sobre o show que irão fazer, ele responderá com uma risada sacana. “Se estou feliz em tocar? Claro! Esta tour tem sido um caos. Tem sido tão ótimo e será um estouro.”

Até então, foram realizados shows na cidade-natal de Armstrong, Crockett, em Oakland, New Orleans, Dallas em San Diego e ainda mais longe têm sido presenteados com resenhas extasiantes. Com os ingressos á venda apenas no horário do show, fãs têm chegado ás casas com dias de antecedência para serem os primeiros na fila. O que eles têm visto dentro destas casas tem tocado fogo em salas de discussão na Internet. – Shows suados, festas banhadas à cerveja, orgãos Hammond estonteantes, invasões de palco, moshes e uma atmosfera meio como um bacanal que faz com que fãs sejam retirados do mosh-pit inconscientes, mas com um sorriso enorme em seus rostos. Houveram relatos de pessoas em cadeiras de roda que invadiram o palco, de policiais sendo socados na cara, desmaios, desesperos, sangue, sexo e cenas que não se viam desde os tempos de Sodoma e Gomorra.

No momento em que Armstrong e cia. começam a ficar bem bêbados no bar do Sunset Marquis, quem diz que hoje à noite será diferente?

Meia hora antes do início do show, a excitação na enorme fila que chega a dobrar o quarteirão começa a aumentar. Para uma banda do status do Green Day, tocar em um palco tão pequeno é algo extraordinário – pense no Foo Fighters tocando no Barfly em Londres, o Red Hot Chilli Peppers tocando no Cockpit em Leeds e o Metallica tocando seu set no Spring & Airbrake em Belfast.

Nos primeiros lugares da fila estão a mãe e filha Sharon e Laurel White. Elas já estão aqui há cerca de 30 horas após acamparem em cima de cadeiras de praia cobertas com cobertores. “Eu estive na estréia da tour em Oakland,” diz Sharon. “Foi tão louco, era em um bar pequeno, sem ar-condicionado. Foi absurdamente quente, divertido e insano. Eu acho que eles têm muitos familiares por ali – a banda do irmão de Billie Joe abriu o show e a atmosfera era muito boa.”

A dedicação destes fãs para a banda não é nada mais do que uma anomalia, neste ponto. Um pouco após a sua chegada ás 15h00 da tarde anterior, mais e mais fãs apareceram na Sunset Strip, carregando pilhas de cobertores, travesseiros e cartas de baralho para mantê-los ocupados. Então conhecemos a família Jose do Texas. Eles chegaram aqui após uma viagem cansativa de mais de 27 horas de ônibus e não fazem a mínima idéia de como irão para casa. “Nós tínhamos planejado ir embora com alguns parentes, mas eles já foram embora,” diz Cindy Jose, com sua filha e amigos na fila. “Não me preocupo em voltar, não. Fomos ao show em Dallas e foi a coisa mais fantástica que já vi na vida. Minha filha subiu no palco para tocar maracas e foi fantástico! Para mim, foi melhor do que um show do Green Day. Green Day não é nada comparado com isso. Este shows são extremamente insanos.”

E então, conhecemos Corey Pavuk, um chef de Las Vegas. Ele dirigiu por seis horas á velocidades altíssimas cruzando o deserto da Califórnia no mesmo minuto em que seu turno no bistrô do Caesar’s Palace terminou. Ele só voltará ao carro quando acabar o show, lá para as 02h00 da manhã, para mais seis horas de viagem cruzando o deserto. “Eu acho que ainda consigo dormir uma hora quando chegar em casa, e então tenho mais um turne de 12 horas começando às 09h00.” Ele o olha como se você fosse louco de perguntar-lhe o por quê dele passar por isso. “Por que é o GREEN DAY!!! Por que você não faria isso?”

A história é a mesma em toda a fila. “Espero caos absoluto,” “rock n’ roll quente, suado e muita diversão,” diz Cody Breedlove, orgulhosa usando uma camiseta do The Network. Outra pessoa é Carlos Garcia, aqui em seu primeiro show ao vivo. “Disse para todos na escola que eu viria, então espero conseguir entrar,” ele diz. “Vai ser tão foda!”

“Eu peguei o avião às 09h00, cheguei aqui o mais rápido que pude e pegarei outro avião amanhã de manhã,” diz Bruce Haney de 23 anos de idade. “Eu irei dormir aqui ou no aeroporto até meu avião sair.” “Chegamos aqui ás 06h00. Já fui aos shows de Pinhead Gunpowder, The Network e Green Day, claro,” diz Tawny Kim, deitada no colo do namorado e não demonstrando cansaço algum desde que chegou. “Se eu prefiro que eles tivessem montado o Foxboro Hot Tubs ou terminado o novo álbum do Green Day? Acho que deveriam ter feito os dois, exatamente como eles são.”

E então, de repente, a porta abre e todo mundo vai para dentro, correndo para chegarem na frente do palco, se espremendo na frente do palco quase sem barreiras para ficarem apenas ali, perto o suficiente para sentirem o calor dos corpos de seus heróis, perto o bastante para serem inundados com seu suor.

“Cheguem mais perto de mim!” – Billie Joe Armstrong

“Aqui estamos em Hollywood, Califórnia,” grita Billie Joe, resplandecente em um óculos de armações brancas e uma espécie de cajado com a cabeça de um jacaré em cima. “Cheguem mais perto de mim! Eu sou o Reverend Strychnine Twitch e nós somos os Foxboro Hot Tubs!” Com este início, o Foxboro lança uma rajada de um rock ‘n roll bêbado na platéia.

Cada um deles, se tivessem cada um, um minuto para si, bebem uma lata de cerveja atrás da outra, riem histericamente e então continuam. Armstrong, livre dos trabalhos de guitarrista, corre pelo palco como um pregador maníaco gritando, xingando e berrando para a platéia na sua frente, mandando que se movam, dancem e se requebrem loucamente. Eles respondem como se fossem uma fonte de energia, se jogando pelo ambiente sem cuidado algum. Após, Armstrong pega o chapéu de um fã e o coloca no topo de sua cabeça. Um segundo depois, joga o mesmo pelo local, puxa uma pessoa no palco, dá-lhe um beijo no rosto e então se joga junto com a pessoa na platéia para mais um mosh. Ele pega mais uma cerveja e a toma como se estivesse respirando, enquanto a platéia começa a subir no palco. Eles o levantam e ele é abraçado, apertado e beijado pelos mais de 30 fãs que o estão cercando. Nos segundos entre as canções, Armstrong respira, ri até dizer chega, brinca como um bebê e então começa gritos de “One-Eyed-Jack”, para sua equipe de jacarés, elevando a loucura do local á níveis máximos.

Ele inicia outra canção, nunca deixando a tensão da atmosfera do local ficar abaixo do nível “incendiária”. A banda atrás dele é coesa, uma levada garage-rock que tem sua base em solavancos de um orgão Hammond e a sempre extremamente forte e unida cozinha de Tré Cool e Mike Dirnt. “Se você não está dançando, você é um merda,” grita Armstrong mais uma vez, não deixando ninguém respirar e muito menos o carnaval parar.

“Onde está a porra da cerveja?” Ele grita, pegando talvez a sua Vigésima cerveja da noite e a esvaziando em sua garganta. Ele pega mais uma, chacoalha a lata e joga grande parte em sua cabeça. O que sobra, ele joga na platéia, antes de jogar a lata para trás, por cima de Tré Cool fazendo com que a lata esmague na parede.

“Só tem uma coisa que está me deixando puto,” ele fala no microfone. “Não tem muitas pessoas aqui em cima do palco!” Em questão de segundos, mais uma invasão de fãs – sem acreditar em sua sorte – cerca a banda. É um palco pequeno, com cerca de 20 passos de largura, mas logo tem mais pessoas em cima do palco do que embaixo, na pista. Enquanto os seguranças tentam fazer com que as pessoas voltem para onde estavam, Billie Joe faz o contrário, puxando mais pessoas para o palco, ao mesmo tempo que canta, balança os braços e chacoalha a cabeça para tirar o suor.

“Preciso de mais uma cerveja, cadê a cerveja?” Armstrong grita mais uma vez. Ele olha ao redor e percebe que bebeu tudo o que tinha no palco – então ele simplesmente pede uma no bar, pedindo para que a cerveja seja passada para ele por cima das cabeças das pessoas no palco. Uma canção depois, a cerveja chega, ele a bebe e pede mais uma “AAAAWOOOOOO!” ele grita, no momento em que a sua banda mais um lance de guitarras.

Quando você olha, fica quase impossível de dizer quem está se divertindo mais, o Foxboro Hot Tubs ou a platéia que passou o dia na porta da casa de shows para vê-los tocar. Mas, na verdade, todas as pessoas aqui são únicas e ao mesmo tempo iguais – a banda e a platéia complementando a noite de cada um. Esta é a maior festa que existe, uma festa onde não existem barreiras entre os megastars multi-milionários e seus admiradores mais leais em sua frente. No momento em que um fã levanta Armstrong, passa seus braços ao redor dele e o beija na bochecha, outro fã está fazendo o mesmo com Dirnt. O guitarrista Kevin Preston segura sua guitarra enquanto uma garota bate em suas cordas e em qualquer lugar que você olhe, no rosto de cada um, existe um sorriso enorme. Isto é simplesmente extraordinário: um show íntimo, brilhante de uma banda que conquistou o mundo para uma platéia seleta. É o tipo de coisa que entra para a história, que vira uma lenda, o tipo de show que, em alguns anos, apenas meras 500 pessoas dirão “eu estive lá”.

Eventualmente, banhados em suor e extasiados de felicidade, eles andam pelo palco. A realização do momento é estampada em suas faces para todos poderem ver.

E então, a platéia se vai para a noite de LA: de caras vermelhas, bochechas cheias de sangue mas felizes e contando a melhor história de suas vidas, por que o Rock N’ Roll não pode ser melhor do que isto.”

Por: Tércio Testa