![]()
|
Sentados no topo do mundo!
Como três idiotas americanos ficaram sérios, criaram uma obra-prima do punk rock e conquistaram o universo (e o Grammy?) Pop. Por Tom Sinclair
Billie Joe Armstrong está prestes á mostrar para milhares de punks europeus o que liberdade de expressão significa de verdade. É uma bela noite em Hamburgo, Alemanha e você consegue praticamente sentir o cheiro de adrenalina espirrando fora das vans estacionando no Sporthalle Arena. Na verdade, você consegue mesmo é sentir o cheiro de cerveja. Centenas de garrafas vazias estão no caminho até a entrada, onde seguranças são obrigados a checar todas as fivelas de metal e correntes de carteiras, além de braceletes. Do lado, uma caixa guarda o suficiente para se montar um shopping punk-rock.
Dentro do ginásio lotado, as últimas notas de "Blitzkrieg Bop" do Ramones entram na trilha sonora original de "2001: Uma Odisséia no Espaço", a música de introdução preferida do Green Day. Antes que você possa dizer "Hey Ho! Let's Go!" O vocalista e guitarrista do Green Day, Billie Joe Armstrong, 32, o baixista Mike Dirnt, 32 e o baterista Tré Cool, 31, rasgam a introdução com a faixa-título de seu mais novo álbum "American Idiot". "Don't wanna be an american idiot," canta Armstrong. "One nation controlled by the media."
Na maior parte das últimas 24 horas, a mídia estava analisando os novos mandamentos de George W. Bush, lançado um dia antes do show de hoje à noite. E embora nada amigável com relação á isso, Armstrong não sente vergonha em dedicar seu próprio comentário "Esta música é um enorme foda-se para George W. Bush," quando grita na introdução de "Holiday," terceiro single do álbum. A platéia em Hamburgo vibra quando Armstrong canta versos politizados como "Sieg heil to the president gasman / Bombs away is your punishment " com um gosto tão grande que se faz você pensar se existe algum fã do Green Day que apoia Bush. "É muito importante," diria Armstrong mais tarde, "você se expressar como queira."
Antes do lançamento de "American Idiot" em Setembro último, se você nos dissesse que o Green Day iria estourar mais uma vez com uma "ópera rock," que seu sétimo álbum estrearia em primeiro lugar na Billboard com congratulações imensas por parte da mídia e que o mesmo seria indicado á sete nomeações do Grammy (Incluindo Álbum do Ano), bem, nós diríamos que aquele mosh descuidado que você deu, poderia ter causado algum mal em seu cérebro, cara. Mas até agora, o álbum já vendeu cerca de 2.2 milhões de cópias e é a volta triunfante de uma banda que foi escorraçada há anos atrás. E tudo isso só mostra que a banda está crescendo.
Não deixe que a temática política do álbum o entristeça. O atrativo de Idiot não toma, na verdade, nenhum partido seja de esquerda ou de direita, deixando a maioria feliz com isso. "De um ponto de vista musical, é simplesmente insano," diz Nick Rizzuto co-fundador da Coscienceofpunk.com, um fórum online com cerca de 2.400 membros que são na maioria, punks conservadores. "Eu não consigo parar de tocar o álbum e ele não me incomoda muito." O que muitos fãs - Democratas, Republicanos ou Anarquistas também - parecem sentir uma irresistível paixão, uma intensidade incessante pela música, a qual tem sido um enorme suporte para a banda em seus dois últimos álbuns. O som rasgado tem feito muito mais do que conectar o público, é mais um golpe decisivo que mostra que o rock é para ser uma música de se chutar na bunda, uma música alta, que estremece seus nervos e chacoalha seu cérebro, deixando para trás coisas como o hip-hop e R&B.
Como o Green Day se redescobriu ao redor de uma das mais inesperadas (e bem-vindas) memórias recentes do rock. "Na primeira vez que entramos em estúdio por uma major, nós dissemos que iríamos ser a maior banda do mundo e isso tá acontecendo meio que por acidente," diz Cool, na suíte do hotel onde está hospedado em Hamburgo após o show. Ele se refere, é claro, á "Dookie" de 1994 que surpreendeu a todos vendendo 7.3 milhões de cópias nos EUA apenas, fazendo com que alguns oportunistas da indústria listassem o álbum como um enorme "Foda-se". Isso já foi dito e provado muitas vezes que uma banda punk rock nunca iria vender e que nunca existiria uma banda punk rock que fosse a maior banda do mundo. "Nós simplesmente acabamos com este mito," diz Cool.
E ainda, se o Green Day abriu espaço para novas bandas pop-punk multiplatinadas como Sum 41, Blink-182, Good Charlotte, então a banda de Bay-Area por si só estaria replicando o sucesso de Dookie em cima destas bandas. Insomniac, de 1995, vendeu apenas 1.9 milhões de cópias, enquanto Nimrod. de 1997, vendeu apenas um pouco a mais, mesmo com o hit-single "Time Of Your Life". No ano de 2002, Warning: fez com que as vendas da banda caíssem ainda mais e a banda parecia estar entrando em um processo de apodrecimento criativo. Armstrong defende estes álbuns dizendo que, "mesmo algumas pessoas não olhando Nimrod. e Warning: como sendo álbuns tão bem sucedidos, eu acho que desde que American Idiot saiu, você consegue notar uma evolução, o processo de nós três ficando mais velhos e crescendo."
Talvez, alguns ainda viram isto na época. "Você conseguia sentir com o rádio, MTV e com o público que o Green Day estava meio em que uma curva para baixo," diz Tom Whalley, que agora é o presidente e CEO da Warner Bros. Records (que é dona da Reprise), não muito tempo depois de Warning: desapontar. "As pessoas não tinham mais certeza se eles eram uma banda relevante."
Mas Whalley e sua equipe notaram algo interessante: Para uma nova geração de fãs de punk-rock, o Green Day havia chegado o status de lendas-vivas do punk ou de velhos formadores de opinião. Esperando conseguir capital na adoração de novos fãs, Whalley decidiu colocá-los em turnê com os garotos do Blink-182. O line-up parecia ser o sonho de muitos garotos e fez com que o Green Day provasse o seu status de old-school e experientes na cena Pop-Punk. A gravadora ainda lançou uma coletânea de hit-singles, International Superhits! na mesma época.
Enquanto estas táticas criaram um breve momentum para a banda, o que a banda realmente precisava era de um álbum extraordinário. Eles passaram uma boa parte de 2002 gravando um novo material, apenas para descobrir um belo dia que as fitas master haviam sido roubadas (Onde as fitas estão ainda é um mistério; Os curiosos avisam e alertam para ficarem de olho no eBay). Putos da vida, a banda resolveu falar sobre o assunto. "Nós nos perguntamos, 'Este álbum era o melhor material que já havíamos feito até hoje?'," diz Armstrong. "E a resposta era clara, NÃO, não era."
Então, o trio começou do zero novamente. Como um exercício criativo, cada membro da banda escrevia canções de apenas 30 segundos e depois a banda junta reproduzia o material. Isto fez com que a banda aparecesse com uma suíte de 9 minutos e dividida em cinco partes, que seria "Homecoming". Eles tocaram a demo da música para Rob Cavallo, o seu co-produtor de longa data, que simplesmente amou o material e disse para que seguissem nesta direção.
E então, a primeira ópera-punk rock era criada. "Eu comecei a escrever o álbum na ordem em que ele é mesmo," diz Armstrong. "Depois que eu escrevi 'Jesus Of Suburbia', não havia mais volta." Para inspiração, a banda escutava álbuns mais velhos, dos mais óbvios (Tommy do The Who, The Rise And The Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars de Bowie) até os surpreendetes (A Trilha-Sonora e West Side Story). "Estávamos selecionando bem nossas referências," diz Armstrong. "O grande desafio era, 'Como faremos algo tão ambicioso assim?' Eu não queria que as pessoas ouvissem American Idiot e pensassem 'Oh Deus, isso é completamente diferente do que o Green Day é."
Ele não precisava se preocupar. Mesmo que ás vezes a história de American Idiot seja um pouco difícil de se seguir, a música é claramente algo especial. Cavallo diz que após ver as músicas serem formadas, depois de um ano, "eu continuava a me surpreender a cada dia. Toda vez que eles apareciam com algo eu dizia 'Puta merda! Isso é excelente!' Eu faço assessoria de bandas há muito tempo e existem sinais que te dizem se tal álbum vai funcionar. Eu simplesmente comecei a ver todos os sinais possíveis que se podia ver." Claro, o álbum estava sendo criado se tornaria na maior expressão política na música em recente memória. Cavallo se preocupou com relação ao fato da gravadora barrar o projeto pelo teor político do álbum? "Nah!," ele diz. "Nós sempre soubemos que a gravadora iria gostar do material. E se não gostassem seriam idiotas."
No dia seguinte ao seu show de Hamburgo, Cool e Dirnt estão aproveitando um feriado nesta ferrenha turnê Européia. Bem, não exatamente um feriado, - uma vez que eles estão conversando com um representante daquela nação maldita, da qual cantam em seu último álbum - mas algo bem perto disto.
Sentados em sua suíte do hotel, o Green Day está claramente adorando ser a maior banda de rock da América mais uma vez, após anos de xingamentos por serem tratados como punks traidores. Eles dividem sentimentos com relação ás sete, sim, SETE indicações ao Grammy - Que punk respeitado não o faria? - mas na maioria das vezes, parecem é muito satisfeitos com as indicações. "Nós não começamos a fazer música para ganhar troféus e nem nada do tipo," diz Cool. "Mas na verdade é bom prá caralho esse reconhecimento."
"Há 10 anos atrás, muita gente escreveu merda sobre nós," diz Dirnt. " 'Eles são apenas uma pequena banda da Bay-Area', mas nós somos uma banda que tem uma carreira. E este álbum é um testamento do que se mantém como uma carreira excelente." Com certeza ela está ganhando força. "Nós estamos juntos há 15 anos," diz Cool. "Para um casamento durar tanto é um feito. E existem apenas duas pessoas, aqui, somos em três!"
Na verdade, a banda diz estar ainda mais feliz com o status profissional que atingiu - e sua relação de musicalidade em três vias - "Nós apenas amamos prá caralho fazer música," diz Cool. "Eu acordo todo dia e começo a pensar no palco, acordo morrendo de vontade de tocar bateria. Quando não estamos tocando, estamos conversando sobre isso. É o que respiramos e o que vivemos."
O que faz com que a banda seja otimista com relação ao seu futuro. Eles ainda são punks, mais recatados, mas que não têm intenção nenhuma em deixar a chama se extinguir, ficando mais – por todos os pecados – entediantes. “O punk ás vezes tem essa atitude desafiadora onde você não pode expandir o que produz,” diz Armstrong. “Eu vejo uma banda como o U2, por exemplo, que começou mais ou menos como uma banda punk e se expandiu de tal forma que chega a ser uma das melhores bandas do planeta. E eu acho OK uma banda querer algo deste tipo.”
Ou talvez, algo mais que isso.
“Nós assistimos aos Rolling Stones há um ano atrás,” diz Dirnt. “Nós vimos dois shows, um em São Francisco que foi bom e então, os assistimos em San Jose e aconteceu algo. Eles se atrasaram e parecia que estavam putos uns com os outros.”
“Mick Jagger deve ter peidado no jatinho,” diz Cool.
“E foi um show fodasso. Foi simplesmente fantástico. Você diria que eles estavam conectados uns aos outros ali. Quando eu vi aquilo em pensei, ‘Deus, é exatamente onde eu quero estar!’ “
“E é até esse tipo de estágio onde queremos levar essa merda!” Diz Cool.
NO PALCO DA BRIXTON ACADEMY, três noites após o show em Hamburgo, Armstrong está seguindo um repertório de poses bem Rock N’ Roll: Se rastejando como Chuck Berry, girando os braços em acordes como Pete Townshend e até mesmo tocando guitarra nas costas e com os dentes, assim como Jimi Hendrix fazia.
A banda mostra praticamente o mesmo set-list que tocou em Hamburgo. A platéia vai á loucura especialmente na hora do material de American Idiot, recebendo canções como “Boulevard Of Broken Dreams”, “Jesus Of Suburbia” e a balada “Wake Me Up When September Ends” (Que Armstrong dedica ao seu falecido colega e definitivamente o ala direito do punk rock Johnny Ramone) com gritos ensurdecedores da platéia. As novas canções soam fantásticas - o tipo de canção de rock tão monumental que para lhes dizer a verdade, só um idiota não conseguiria amar.
O Green Day, claro, tem algumas surpresas a mais na manga e mandam ver em canções mais velhas como “Longview”, “Brain Stew” e “Minority”, assim como um belo par de covers, entre elas “Shout” dos Isley Brothers e uma versão nada irônica de “We Are The Champions” da banda Queen. Mas o grande destaque da noite com certeza é na hora que a banda toca “Knowledge”, cover dos parceiros do Green Day e defunta banda Operation Ivy. No meio da música, Armstrong chama ao palco três voluntários para preencherem os postos de baterista, baixista e guitarrista e para que terminem a versão da banda utilizando os próprios instrumentos da banda. Assim, os quatro finalizam a canção e fazem com que o momento seja ainda mais especial e tocante. E olha que isso não tem simplesmente nada a ver com política.
Hoje á noite, pela primeira vez na turnê, o guitarrista que Billie chama ao palco, na verdade é uma garota e ela faz um belo trabalho. Quando Armstrong diz que a guitarra é DELA e que ela pode guardá-la consigo, ela parece que vai se derreter inteira. Imediatamente após o show, a jovem londrina de 16 anos, Kate Hiley, vai até o backstage para receber sua nova guitarra.
“Oh, meu Deus!!” A garota fala sem quase conseguir respirar. “Eu não podia acreditar que ele tinha me chamado no palco, eles foram a primeira banda que eu ouvi, isso quando eu tinha uns oito anos de idade. Eu os assisti ano passado no Reading Festival e me sentia tão invejosa das pessoas que ele chamava no palco e hoje eu sou uma delas!”
No que diz respeito ás convicções agressivas da banda, bem, ela é á favor, mais ou menos, “É meio difícil entender a política americana,” ela diz. “Mas eu acho fantástico que essa seja uma banda que toque uma música foda e que tome partido no sentido de ensinar as pessoas o que está sem passando no mundo, sacou?”
Se ela tem uma banda?
“Ainda não,” ela diz. “Mas talvez sim após hoje à noite e tudo graças ao Green Day!”
Mais uma vida mudada pelo Rock N’ Roll. Agora, esta sim é o tipo de atitude política radical que nós vamos sempre apoiar!
|