.::O Idiota Americano::.
 

Era meia-noite algures nos subúrbios de Nova York. Deitado na cama um rapaz olhava insistentemente para o tecto. Fazia a si mesmo perguntas a que ninguém sabia responder. Porque não era naquela América consumista e gananciosa que ele queria viver. Ele não queria ser outro idiota americano, não queria ser mais um vencido pela ganância de poder.

Tinham-lhe chamado William no dia em que nasceu, nome usualmente diminuído para Billy. Billy, o Jesus dos Subúrbios. Igual a toda a gente, diferente de muitos outros. Cabelo negro penteado com gel, olhos verdes profundos. Filho de pais separadas - a viver com a mãe - que volta e meia arranjava um novo namorado.

O Billy divertia-se com os colegas, com brincadeiras adolescentes de proporções graves, como destruir supermercados e roubar garrafas de cerveja, que enfiavam para a goela de seguida, de uma só vez.

Namoradas? Muitas, mas que raramente chegavam a durar uma semana. Essa era a América que ele conhecia. Essa era a única América de que ele sabia algo.

Olhou de novo o tecto. Afinal, o que o prendia ali? Não havia amigos ou raparigas que merecessem que ele ficasse, e a mãe raramente reparava que ele estava em casa. Ia sair dali. Ia fugir àquela América. Ia procurar algo mais. Abriu uma mochila e enfiou atabalhoadamente o estritamente necessário lá dentro. Saiu do quarto e abriu a porta da sala. A mãe estava sentada no sofá da sala a fumar um cigarro. Levantou os olhos e não disse nada. O Billy saiu. Ia finalmente ficar livre daquilo. A mãe finalmente levantou-se e foi atrás dele.
- Onde vais? - perguntou-lhe.
- Vou embora.
- Embora? Porquê?
- E porque não? Já nada me prende aqui. Adeus.

Pôs a mochila a tiracolo, pegou nas chaves do carro e pô-lo a trabalhar. Tinha a carta há pouco tempo, mas o suficiente para se ir embora dali.
Guiou o carro durante horas e horas. Ao chegar da noite viu-se numa cidade iluminada, cheia de casinos. Não sabia onde estava, mas também não queria saber.

Nessa noite gastou todo o dinheiro que tinha, e adormeceu embriagado num canto. Acordou de manhã naquela que podia ser a Rua dos Sonhos Desfeitos. Não havia ninguém ali perto. Levantou-se e vagueou sozinho durante muito tempo. A cidade de dia perdia todo o seu fascínio, parecia apenas mais uma cidade suja e abandonada por todos. Deixou-se abater pelo cansaço de uma ressaca e nada fez para mudar a ordem das coisas. Deixou-se simplesmente cair num canto.
Afinal, de que servia fugir? O que fazia ele naquela cidade? No fundo, tanto fazia estar ali ou noutro sítio.

Ao longe, vislumbrou uma sombra. Um rapaz de cabelo espetado fumava marijuana. Tinha vestidos uns jeans azuis esfarrapados, e uns ténis All Star a pedir reforma. A sombra olhou para o Billy e esboçou um sorriso amarelo. Aproximou-se.
- Queres uma passa? - perguntou-lhe, estendendo-lhe o cigarro.
O Billy hesitou, mas afinal que mal tinha? Que diferença fazia? Aceitou. Sentiu de imediato um calor estranho invadir-lhe o corpo.

Seguiu-se o conhecimento mútuo. O rapaz tinha como nome Jimmy. O Saint Jimmy, filho de uma prostituta, a viver na rua desde sempre, a estragar a vida que nunca tivera com drogas.
O Billy apoiou-se nele e nas suas drogas para esquecer tudo em que a sua mente se fixava. Não conseguia mais suportar os seus pensamentos. Não valia a pena. Nada valia a pena. Ou valeria?

Num dos seus passeios solitários encontrou uma rapariga. Estava sentada num banco de jardim a olhar o céu. Tinha o cabelo ruivo, muito ruivo, a esvoaçar ao vento, e era só isso que o Billy conseguia ver. Aproximou-se dela, pensando que ela não o ia reparar. Mas ela olhou para trás e viu-o.
- Quem és tu? - perguntou ela descontraidamente.
O Billy olhou-a. Não estava À espera daquilo.
- Billy. Sou o Billy.
- Óptimo. Eu sou a Adrienne. Agora, por alma de quem é que me estavas a espiar?
Sempre assim. Sempre directa. E ele ia respondendo. Todos os dias ela se sentava naquele banco e todos os dias o Billy ia lá ter. E ao fim desses dias, algo diferente surgiu entre eles. Algo que o Billy nunca tinha experimentado. O amor. O amor por uma rapariga extraordinária que ele tinha encontrado num banco de jardim.

Mas o Billy continuava apoiado no Jimmy. No Jimmy, nas drogas, em tudo de que ele tinha um dia dito mal.

Até que a Adrienne não aguentou mais. Um dia ela não apareceu. No seu lugar estava uma carta. Uma carta que lhe explicava tudo. Ele não era mais o Jesus dos Subúrbios, o Jimmy era uma junção do ódio do seu pai e o amor da sua mãe, e ele já não era capaz de fazer decisões por si próprio. Era um desgraçado inútil, e ela já não conseguia suportá-lo, não conseguia suportar aquela cidade, ia deixar tudo para trás.

Um arrepio passou pela coluna do Billy quando leu a carta. Novamente, sentiu-se sozinho. Tinha perdido tudo. Já não tinha onde se agarrar. O Jimmy não lhe servia de nada.

Decidiu nessa altura. Não podia continuar assim. O Jimmy não merecia que ele se importasse. Para ele, o Jimmy estava morto. Simplesmente morto. E já não havia nada para ele ali, de novo. Ia voltar. Ia deixar a cidade, como a Adrienne tinha feito. Ia voltar para o seu lar. Arranjar um emprego. Mas ninguém se importava.
Chegou à cidade. Arranjou emprego num escritório. Era um trabalho aborrecido, mas alguém tinha de o fazer.

Passado alguns meses recebeu uma carta de outro companheiro das drogas - Tunny - que lhe dizia que tinha uma vida de Rock Star e que fazia o que queria. O Billy amarrotou a carta e lançou-a para o lixo. Estava decidido. Nada mais importava. Ele estava em casa. Na sua casa. E apesar de se lembrar um pouco da Adrienne, já não lhe interessava muito. Esse era um pedaço da sua vida. Apenas um pedaço, uma fuga. Mas para quê fugir? Por que não ficar e enfrentar o mundo?